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MAGIA SEM FIOS

Marionetas – Sem querer cristalizar modelos de criação, mas procurar novas formas de encarar a prática artística, o Teatro de Marionetas do Porto mostra o ator a manipular as marionetas. Tudo sem fios. A marioneta é um meio para explicar ideias que refletem a realidade contemporânea.

19 / 10 / 2003
Texto e entrevista por: José Dias
Fotografias: Gaspar de Jesus

Teatro para crianças e adultos. Em cena: História da Praia Grande, para crianças, onde pinguins e pelicanos encontram a paz num conto de magia e amor.

TUDO COMEÇOU HÁ QUASE 15 ANOS. Um grupo amante de teatro decidiu dar continuidade de forma sistemática e organizada à actividade que desenvolvia há algum tempo. Nasce assim, em 1988, o Teatro de Marionetas do Porto (TMP). O nome foi inventado, “não tem explicação nenhuma. Havia um grupo de pessoas ligadas a vários grupos que se juntaram num projeto em que as marionetas eram a parte mais visível. A designação surge num festival em França. Era necessário nome para o coletivo”, explica João Paulo Seara Cardoso, encenador e diretor artístico do TMP.

Como ideia forte e válida, o projeto percorre um caminho sólido, centrado num “núcleo de pessoas com experiências artísticas diversas, e liga-se exclusivamente à produção de espetáculos no domínio das marionetas e das formas animadas. Numa das vertentes mais importantes do seu trabalho, o TMP dedicou-se ao estudo e recuperação de antigas formas de teatro português de fantoches, dos quais se salienta o Teatro Dom Roberto”. E sempre foram encetadas novas experiências de criação, nunca cristalizando a forma de estar no meio.

Aos poucos, os espetáculos foram surgindo, criados na vontade e em muito trabalho, para crianças e adultos. O TMP, que nunca utilizou marionetas presas por fios, desenvolveu um trabalho rico nas formas, nos conteúdos, numa arte sublime de apresentação de textos através do silêncio ou de muito poucas palavras. Em 1991, mantendo outros espetáculos em repertório, foi montado o espetáculo Miséria, baseado num conto popular e utilizando a técnica de manipulação à vista. Um ano depois, em 1992, “o TMP teve oportunidade de concretizar um dos seus projetos iniciais, talvez o mais ambicioso: a abertura de um teatro permanente de marionetas na cidade do Porto, o Teatro de Belomonte, que representa também o primeiro espaço do género em Portugal. Vai no Batalha constitui a primeira produção fixa da companhia, concebida especificamente para o Teatro de Belomonte. Esteve em cena entre maio e novembro de 1993 e transformou-se no primeiro grande êxito de bilheteira em Portugal de um espetáculo de marionetas”.

Os espetáculos sucedem-se. Montagens são diversas e o trabalho não se limita ao Teatro de Belomonte. Fazem coproduções com companhias conhecidas, recebem prémios, realizam-se digressões por Portugal e pelo estrangeiro e representam em diversos festivais internacionais. Mantêm em repertório os espetáculos Teatro Dom Roberto, Miséria, Exit, nada ou o Silêncio de Beckett, Óscar, Os Três Porquinhos, Macbeth e Paisagem Azul com Automóveis. Mas, para entraremos neste mundo mágico das marionetas, falámos com João Paulo Seara Cardoso.

Notícias Magazine – O TMP tem uma filosofia diferente de um teatro normal. O que vos distingue?

João Paulo Seara Cardoso – Penso que temos determinado tipo de particularidades que nos distinguem de outras estruturas teatrais. Fazemos duas novas peças por ano, uma para crianças e outra para adultos. Um trabalho para adultos muito baseado nas possibilidades expressivas das marionetas, na poética da marioneta, que tem a ver, em determinados aspetos, com a essência do teatro; e, por outro lado, espetáculos para crianças, por vocação, tentando dar resposta a uma aflitiva falta de oferta cultural nesse aspeto que existe nesta cidade. Realmente no Porto há muito poucas oportunidades para os pais levarem os filhos ao teatro. Tornou-se uma tradição e, durante dois meses no ano, os pais sabem, e as crianças também, que o TMP está em cena e que poderão ir ver os espetáculos.

NM – São os únicos no Porto a fazer teatro para crianças?

JPSC – Poderá haver outros espetáculos, de outras companhias, mas não de uma forma sistemática.

NM – Mas não se limitam ao Porto.

JPSC – Para além desta programação no Porto, que nos ocupa cerca de três a quatro meses por ano, temos a itinerãncia. Cerca de quarenta por cento dos nossos espetáculos são feitos fora do Porto, em Portugal e no estrangeiro. É um aspeto que nos carateriza e nos dá uma forma peculiar de encara a atividade teatral. Também isso é feito por vocação. Existe uma rede nacional e internacional de parceiros que nos convida frequentemente. É fácil alimentar esse circuito, e é realmente uma das coisas que nos dão prazer e que contribuem para uma grande intensidade de trabalho, pois é difícil dar resposta a todas essas solicitações.

NM – Quantas pessoas trabalham no TMP?

JPSC – Temos uma estrutura muito condensada. Fixos existem três atores, dois técnicos, duas pessoas na produção e um diretor artístico. Depois há uma série de colaboradores permanentes que intervêm na criação dos espetáculos. Deste núcleo de oito pessoas permanentes existe, mais ou menos, um grupo de vinte que entra na feitura dos espetáculos, desde as que concebem as marionetas, que as constróem, pintam, costureiras, gráficos. È nessas alturas que este teatro se anima e há mais gente aqui a trabalharem em pleno.

NM – Quanto demora criar um espetáculo?

JPSC – O objetivo e o tempo normal de montagem de um espetáculo de teatro são de três meses. Normalmente é isso que acontece, mas quando são espetáculos que envolvem mais pesquisa, acabamos por demorar perto de quatro meses.

NM – Os textos são originais?

JPSC – Normalmente os espetáculos para crianças têm textos originais. Noutros o texto é utilizado de uma forma muito especial, fragmentada, sem uma verdadeira aceção literária, um texto mais como signo teatral, que entra ao nível dos outros, como se fosse música, movimento ou luz. Exceção aberta que assumimos em relação ao texto de Shakespeare, Macbeth.

NM – É fácil fazer teatro em Portugal?

JPSC – Não é fácil a subsistência de estruturas culturais independentes como a nossa. Portugal é um país um pouco subdesenvolvido culturalmente. Não é um país em que os produtos culturais circulem com grande facilidade e tenham muito público. Como dizia Almeida Garrett, “o teatro é um meio de civilização, mas não prospera onde a não há”. Não havendo um grau civilizacional elevado em Portugal, muito mais difícil se torna que os produtos culturais e a criação cultural sejam um bem usufruído por uma grande margem da população e que circule por todo o país em centros culturais ou em salas de espetáculos com condições.

NM – Não há mudanças?

JPSC – Finalmente começa a vislumbrar-se algo de muito interessante, que já existe noutros países da Europa há muitos anos: a criação de uma rede nacional de cineteatros que num futuro não muito longínquo irá possibilitar, em cada capital de distrito, uma sala com condições para acolher espetáculos de teatro e eventos diversos. Neste momento, em Portugal, a circulação para nós é possível porque há uma certa aceitação dos nossos espetáculos nesses circuitos, mas não será fácil para todos.

NM – Que apoios têm?

JPSC – O TMP vive com cinquenta por cento de subsídio do Ministério da Cultura, cinquenta por cento de receitas próprias, de vendas de espetáculos. É um caso raríssimo, daí a importância económica da circulação dos nossos espetáculos.

NM – O Teatro de Belomonte tornou-se reduzido para público e projetos. Onde apresentam os espetáculos?

JPSC – Neste momento as instalações do Teatro de Belomonte são o nosso espaço de produção, trabalho e ensaios. A sala de espetáculos do Teatro de Belomonte foi desativada, pois era impossível continuar a fazer espetáculos com tanto público numa sala para sessenta pessoas. Tínhamos de ficar tempos infinitos em cena e limitava muito a nossa atividade. Agora temos apresentado espetáculos em vários locais, desde o Teatro de S. João ao Rivoli. Mas o nosso espaço preferencial e onde temos feito realmente mais espetáculos é o Balleteatro Auditório, em Arca D´Água.

NM – O que gostava que fosse num futuro próximo o TMP?

JPSC – A estrutura ganhou uma solidez ao nível da orgânica, do funcionamento, da maturidade de um projeto de criação que não esperava há uns anos. Neste momento estamos em velocidade de cruzeiro. Não temos tanta preocupação em termos financeiros para a atividade, é um dado adquirido, e toda a forma de trabalhar fica facilitada. Prevejo que nos próximos anos sigamos esta velocidade de cruzeiro com a preocupação de nunca cristalizar modelos de criação, mas de procurar sempre novas formas de encarar a prática artística. Penso que os nossos espetáculos refletem muito uma certa vontade de experimentar novos caminhos.

NM – E há público?

JPSC – Os espetáculos que fazemos no Porto ou fora estão cheios. Esse aspeto é gratificante e é um indicador interessante da nossa atividade. Mesmo no estrangeiro a aceitação dos nossos espetáculos é muito grande.

NM – Mantêm quase todos os espetáculos que representaram em cena. Há alguma razão?

JPSC – Somos uma companhia de repertórios. Todos os espetáculos que estão montados ficam em cena durante os quatro, cinco, seis, sete anos seguintes. Há um espetáculo que já fazemos há dez anos, Miséria. Quando nos pedem para fazer em determinadas circunstâncias um espetáculo, vemos qual é o melhor que temos para se adaptar a essa situação. Mesmo nos espetáculos infantis há alguns mais móveis, que envolvem menos meios, e que são mais fáceis de representar.

NM – Que filosofia têm para criar espetáculos?

JPSC – Temos uma maneira de trabalhar muito especial, que bebe do teatro, bebe das marionetas, das novas linguagens audiovisuais, como vídeo, de um entendimento especial do papel da música, da cenografia, da luz. Diria que não somos um teatro de marionetas ortodoxo, que não fazemos um teatro de marionetas, mas com marionetas. O ator é um elemento fundamental. Nesta conceção teatral que temos considero fundamental que o ator seja visto pelo público a manipular a marioneta, criando uma dialéctica que cabe ao público descodificar, entender. Há um dualismo, um ser que age, uma relação entre o ator e a marioneta que é muito teatral. Para mim não faz sentido o teatro de marionetas em que se tenta criar a ilusão teatral escondendo o ator.

NM – Não há fios?

JPSC – Nós entendemos a palavra marioneta num sentido mais lato, mas é verdade que o senso comum entende marioneta como os bonecos de fios. Nunca nesta companhia se trabalhou com marionetas de fios. Para nós a marioneta é entendida como um objeto, um meio de que dispomos em cada espetáculo para explicitar ideias. Em cada espetáculo iniciamos invariavelmente um processo de pesquisa para a descoberta de novas formas e técnicas de manipulação. As nossas marionetas não cristalizam. Em cada espetáculo encontramos uma maneira de as construir que se adapte à estética e à linguagem própria daquela criação.

NM – Que ideias tentam explicitar?

JPSC – O teatro é sempre uma reflexão sobre o mundo. Não há dúvida de que as ideias que estão envolvidas num espetáculo fazem parte das minhas preocupações em relação à realidade, são reflexo das minhas inquietações. Espero que essas inquietações sejam partilhadas, sejam minimamente universais e que as possa, através do ato teatral, partilhar com o público. É tentar que o teatro reflita de um modo muito fiel à realidade contemporânea e o mundo em que vivemos. Não me preocupo em propagar ideias, mas em refletir e partilhar essa reflexão com o público. É evidente que quando mostramos o nosso ponto de vista em relação ao mundo estamos a tomar uma posição, mesmo que não queiramos.

NM – Atualmente o que está em cena?

JPSC – Temos um espetáculo em cena no Balleteatro Auditório, para crianças, que retomou no mês de outubro até parte de novembro. O nosso próximo projeto é um espetáculo feito a partir de um texto: La Maladie de la Mort, de Marguerite Duras. Vai se um espetáculo muito circunscrito ao universo de Marguerite Duras, ao universo daquele texto e, da nossa parte, encarado como o da escritora. Estreia em janeiro de 2004.

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