João sem medo de existir

Nos 20 anos do Teatro de Marionetas do Porto
João Paulo Seara Cardoso em entrevista

Texto e Entrevista: Goretti Teixeira
14 de abril de 2008
in “Notícias da Manhã” (suplemento das Artes, das Letras),

Este ano, excecionalmente, o Teatro de Marionetas do Porto não estreia as habituais duas novas produções, mas nada tem a ver com falta de ideias. Aliás, por ser em 2008 que a companhia celebra 20 de existência, a programação é variada e extensa e inclui alguns dos espetáculos que contam a sua história.

Uma história que “o das Artes das Letras” ouviu de João Paulo Seara Cardoso, o diretor do TMP, e que agora reproduz alguns dos momentos marcantes. Acompanhados da Tia Ana do Bolhão (marioneta) ficámos ainda a saber que, em 2009, estreará um novo espetáculo para adultos, com uma incursão pelo universo da “Metamorfose”, de Kafka.

Positivo e tranquilo são os adjetivos usados por João Paulo Seara Cardoso para fazer o balanço de duas décadas de existência do Teatro de Marionetas do Porto (TMP). Este é o ano de todas as comemorações e para o efeito nada melhor do que urna viagem ao passado, através de alguns dos espetáculos que contam a história da companhia, criada em 1988, por João Paulo Seara Cardoso, Mário Moutinho, Rosa Ramos, João Lóío, Ana Queirós e Carlos Magalhães. Ao longo destes 20 anos não sente que tenham alcançado alguma fórmula mágica para o sucesso, nem tão pouco que tenham inventado algo de novo. Para o diretor do TMP, esta data é sentida como “um ponto de passagem, além de que estamos com uma grande vitalidade para continuarmos por mais 40”. No entanto, afirmar que não inventaram nada de novo não corresponde totalmente à verdade, pois no teatro de marionetas a companhia tem primado pela experimentalidade, pela aproximação à contemporaneidade e pela fuga ao tradicional conceito de marioneta. E tudo isto porque, revela Seara Cardoso, “temos uma atitude muito inconformista em relação ao Teatro e às marionetas”, acrescentando que cada nova criação representa sempre um avanço em relação as anteriores produções. Além disso, procuram também situar-se “num patamar contemporâneo da criação teatral”, além da grande preocupação em não se deixarem “cristalizar ou fixar em fórmulas de sucesso”, salienta, De acordo com o encenador e ator, durante duas décadas, “passámos por várias fórmulas teatrais que nos permitiriam, até ao fim das nossas vidas, sobreviver do teatro e sermos ricos. No entanto, e muito sinceramente, não é isso que me interessa. Ter muito público não é o mais importante. O que realmente importa é fazer um teatro em que acreditamos, com grande honestidade e, mesmo tendo um grande orgulho no apoio que o público dá ao TMP e que é cada vez maior, de forma alguma quero que as nossas criações reflitam o gosto do público”. Para João Paulo Seara Cardoso a arte reside em levar o público a refletir sobre questões das suas vidas e do nosso mundo. Trata-se, portanto, “de uma partilha e de uma reflexão usada através de uma atitude estética que pode não ser fácil e pode não ir de encontro a um gosto comum”, sustenta. Por essa razão, afirma que gosta que os espetáculos da companhia transmitam “uma intranquilidade e que não sejam fast food”. A mesma intranquilidade que o caracteriza e que é exteriorizada através das criações teatrais que produz, pois mesmo sendo uma atitude pessoal, confirma o diretor que esta é “partilhada por este colectivo de pessoas que integram o TMP e, numa segunda fase, esperamos que seja partilhado por um vasto número de pessoas que é o público”.

Início de tudo

Aquando da criação do Teatro de Marionetas do Porto, nenhum dos elementos fundadores equacionou que, 20 anos volvidos, a companhia se apresentasse tão sólida, com tanto público, reconhecida e respeitada tanto dentro como fora do País. Segundo o diretor, isso ficou a dever-se “a um certo espírito aventureiro” que caracterizou não só a sua própria vivência, como a das pessoas que circundavam os restantes membros. Só tempos mais tarde se deram conta de que o projeto Teatro de Marionetas do Porto começava a ser acarinhado na cidade, de que havia um reflexo público do trabalho realizado e que, consequentemente, levou ao aparecimento de apoios de entidades oficiais. “A partir daí as coisas tornaram-se mais sérias”, lembra o encenador, sublinhando: “foi nesse momento que sentimos que a vida do grupo dependeria da existência de um espaço para que nos pudéssemos encontrar para trabalhar”. O Teatro do Belomonte foi o espaço adquirido, posteriormente transformado naquilo que continua a ser hoje a sede da companhia, o lugar de trabalho e de ensaios, mas onde já não apresentam os espetáculos, pois a intimista sala para 50 pessoas tornou-se pequena para tanta criatividade. O Balleteatro é, no momento, a sala de espetáculos por excelência da companhia.

Diferentes fases

Desde a sua formação, o Teatro de Marionetas do Porto produziu e apresentou mais de 30 espetáculos, num percurso que fica marcado por duas fases. João Paulo Seara Cardoso explica e enumera: “Quem conhece o nosso percurso sabe que existe uma fase mais tradicional que vai até ao princípio dos anos 90, tendo depois surgido uma rutura construtiva, através da qual seguimos diversas direções muito mais voltadas para um lado contemporâneo. Espetáculos como “Miséria” e “Vai no Batalha” são os mais importantes dessa fase tradicional. Depois fizemos uma experiência muito radical, chamada “Terceira Estação”, que mostrava a preocupação em renegar o passado, pois interessava-me mais o meu lado de criador e de procurar ser uma pessoa intranquila, do que propriamente ficar naquela fórmula do teatro de revista, com muito público e a dar dinheiro. Porém, a criação que marca aquilo que nós viríamos a ser é o “Exit”. O primeiro espetáculo de um ciclo chamado “Ciclo Urbano” que reflete sobre as nossas vidas num mundo pós-moderno, sendo as marionetas elementos fortíssimos para pensar sobre esses assuntos. Há a questão da incomunicabilidade, da massificação e da perda de identidade. O personagem dá pelo nome de Pixel, a ideia de sermos uma pintinha no meio de milhões. A partir daqui, na maior parte dos nossos espetáculos, começámos a introduzir uma reflexão sobre questões das nossas vidas e do nosso mundo contemporâneo”.

Uma prenda

Recentemente foi atribuída ao TMP a Medalha de Mérito Cultural do Governo. Uma prenda que, segundo o diretor, “nem me adianta, nem me atrasa, porque embora não goste de falar destas coisas, acho que ao fim de 20 anos merecíamos um apoio financeiro do Estado muito maior”. Enquanto companhia convencionada que tem um apoio quadrienal que acaba este ano, a melhor prenda que podiam receber seria, augura Seara Cardoso, “a hipótese de conseguirmos uma renovação desse apoio”. A propósito, explica o encenador: “Metade do nosso financiamento orçamental é gerado por nós e, nesse sentido, penso que deve ser tido em conta na apreciação dos projetos culturais. O problema é que esse lado é muitas vezes esquecido. No meu entender, a responsabilidade das companhias que são apoiadas pelo Estado não passa por terem sucesso, nem por fazerem um teatro do género comercial, mas sim por adquirirem o mínimo de aceitação pública e o mínimo de receitas. Só assim o teatro faz sentido”, conclui.

Sem medo de existir

Gosta muito de fazer tentativas e quantas mais melhor, pois como afirma “mais possibilidades existem de se seguir o caminho certo”. No que se pode intitular de pequeno perfil, João Paulo Seara Cardoso revela-se um homem inquieto e avesso à passividade. Não gosta de fórmulas exatas e prefere novos desafios. Entre a direção, a interpretação e a escrita existem diferenças, contudo as três seguem uma mesma direção: o teatro de marionetas.

Do que é que não gosta?

Não gosto da atitude passiva perante a vida ou perante o que nos rodeia. Uma atitude que está muito bem expressa no livro do José Gil, “Portugal, o medo de existir”.

E em termos profissionais?

Não gosto de pisar os mesmos caminhos. Não gosto de refazer ou estar atrelado à ideia de um êxito. Ou seja, usar uma mesma fórmula só porque as pessoas têm uma expectativa em relação a alguma coisa.

O que é que aprecia?

Uma obra de arte. É das coisas que me fazem mais feliz e me reconciliam com o mundo. Gosto também de ver um bom filme, uma boa peça de teatro e de guardar sensações preciosas. Só há três anos é que vi a “Guernica” ao vivo. A sensação de ter visto pela primeira vez uma coisa com a qual sonhava há muitos anos e que para mim era um paradigma da arte contemporânea, do que deve ser a arte, é uma sensação que frutifica.

Qualidades e defeitos?

Deixo para os outros avaliarem. Não tenho muita consciência sobre…

Em qual dos papéis se sente melhor: ator ou diretor?

É algo que eu próprio não consigo resolver. Por uma questão de eficácia, uma vez que as nossas produções são sempre muito exigentes, tenho ficado sempre do lado de diretor. Sinto que tenho de estar sempre com o olhar posto sobre aquilo que se vai passando no palco durante os ensaios. O facto de ser intérprete, em simultâneo, não me permite dar a devida atenção às coisas. Por outro lado, gosto muito de fazer espetáculos e de ter esse prazer de estar no palco. Ainda hoje mantenho três solos – Miséria, Teatro Dom Roberto e Capuchinho Vermelho. Além disso, entro em dois espetáculos da companhia – Os Encantos de Medeia (António José da Silva, o judeu) e Macbeth (Wïlliam Shakespeare) – que também serão repostos este ano. No momento, sinto-me mais do lado da encenação, mas, de vez em quando, gosto me sentir no palco, até porque é útil no meu trabalho de direção.

É um diretor exigente?

Super exigente. Aliás, neste teatro há uma cultura de exigência, tanto ao nível da administração como ao nível da imagem pública. Para mim a exigência é um ponto fundamental. Também posso acrescentar que se este teatro não fosse muito bem gerido, com grande rigor, nunca poderia existir, porque é muito difícil fazer a nossa atividade, com os meios que temos. Do pouco conseguimos fazer muito.

Onde se encaixa a sua faceta de escritor para a infância?

Não sou um escritor por vocação. Sou mais um escritor por necessidade. Escrevi o meu primeiro livro com 26 ou 27 anos. Depois estive muito tempo sem escrever nada. até que comecei a escrever por necessidade. Não encontrava textos que se adaptassem as nossas necessidades e a verdade é que, neste momento, já vou em nove livros publicados. Divirto-me muito a escrever, mas não tenho grande vocação.

Rasga muito e deita para o lixo?

Sim, mas esse é o meu processo de trabalho. Como no teatro, gosto muito de fazer tentativas. Para mim um processo de encenação é um processo de tentativas em que a maior parte são falhadas. Quanto mais hipóteses houver de que algo não serve, mais possibilidades existem de se seguir o caminho certo. Num livro, como no teatro, escrevo, escrevo, escrevo… muitas páginas para deitar fora, até encontrar o tom que quero. A partir daí, tudo é mais fácil.

Do Belomonte para as Flores

Há mais de três anos que o Teatro de Marionetas do Porto adquiriu na Rua das Flores aquele que será o edifício a acolher o espólio da companhia. O tão desejado Museu de Marionetas vai finalmente materializar-se e dotar a cidade de mais um local de interesse turístico e cultural.

Apesar de ainda estarem a faltar apoios financeiros que continuam a ser bem-vindos, João Paulo Seara Cardoso acredita que, em 2009, vai poder finalmente abrir à cidade as portas do Museu de Marionetas. Será na Rua das Rores, a escassos metros do Teatro de Belomonte (sede da companhia), que as 1200 peças que fazem parte do espólio do Teatro de Marionetas do Porto – cerca de 700 bonecos, além de cenários e de adereços – vão ocupar as três salas do edifício que possui uma área de 500 metros quadrados. O projeto arquitetónico é da responsabilidade de José Gigante, o mesmo arquiteto que assinou o projeto do Teatro de Belomonte. Depois de mais de dois anos à espera de aprovação camarária, o sonho do Museu de Marionetas parece ter os dias contados para se tomar realidade. De acordo com o diretor do TMP, “o nosso grande passo é a abertura do museu no próximo ano, por isso, gostávamos que as obras tivessem início ainda antes do final de 2008, mas ainda são necessários alguns apoios”. Para Seara Cardoso, a criação desta infra-estnitura não será apenas uma mais valia para a companhia, mas também para a cidade do Porto. Num texto que escreveu a propósito do museu, é possível ler-se: “O interesse do projeto não se esgota na sua localização privilegiada. O TMP é uma companhia fortemente implantada na cidade e a corrente de público criada nos últimos 20 anos constituirá um forte potencial de visitantes, sendo que, do ponto de vista do turismo cultural, o museu poderá afirmar-se como um ponto de referência da baixa portuense e do seu centro histórico”. Um museu que será também vital para captar a atenção de um público mais jovem e de um público familiar. Como escreve ainda no referido texto João Paulo Seara Cardoso: “Não será porventura um grande museu, mas possuirá certamente o ambiente e a magia apropriados ao universo das marionetas”.

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