PAISAGEM AZUL COM AUTOMÓVEIS

Andamos, desde há alguns anos atrás, com uma certa ideia obsessiva de extrair “matéria teatralizável” das nossas vivências urbanas. De refletir acerca do modo como sobrevivem as nossas emoções, os nossos “sentidos”, no mundo urbano pós moderno da massificação e do isolamento. De como os nossos pensamentos reagem quando se instala o “síndroma de pixel”.

Olhámos o mundo, olhámos a cidade e as pessoas e as coisas mas também podemos imaginar que somos olhados pelo que nos rodeia. O nosso trabalho começa exatamente nessa mudança de ponto de vista.

E ao cerrar lentamente os olhos, eis que se instala um sistema de filtros, de imagens em sentido contrário, um teatro do invisível, dos sentidos inacabados, dos pensamentos à espera de um olhar especial que os fará ganharem sentidos inesperados e pessoais.

Os corpos artificiais são propícios à criação de vazios habitáveis. A existência. a um mesmo tempo ou em tempos relativizados, de atores e marionetas, essas sublimes máquinas do desejo, metáforas do dessassossego movendo-se entre a terra e o ar, fazem-nos afinal compreender o sentido do efémero.

E assim vamos, neste modo de criação, partindo de simples experiências, de palavras que nos deixam impressões, de meras hipóteses poéticas que vão evoluindo segundo critérios estéticos e de coerência até nos parecer que constituem imagens ou sensações, ou simples coisas que um dia passaram por dentro ou ao lado das nossas vidas.
É essa estranha ressonância do teatro com a vida que procurámos obsessivamente.

João Paulo Seara Cardoso

  • Paisagem azul com automóveis
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Paisagem Azul com Automóveis
encenação e cenografia
João Paulo Seara Cardoso

marionetas
Júlio Vanzeler

figurinos
Júlio Vanzeler, Patrícia Valente

texto
Steve McAllister

sonoplastia
Sérgio Rolo

vídeo
António Real

pintura de marionetas
Emília Sousa

coordenação de movimento
Isabel Barros

desenho de luz
Jorge Costa

elenco
Edgard Fernandes, Igor Gandra, Mariana Portugal, Sérgio Rolo, Tânia Gonçalves

assistente de encenação
Marta Nunes

assistente de produção
Paula Anabela Silva

coordenação técnica
Rui Pedro Rodrigues

coordenação de construção
Vitor Silva

técnicos de construção
Abílio Silva, Alexandra Pires, Júlio Alves, Rui Pedro Rodrigues

confecção de figurinos
Branca Elísio

construção de cenografia
Américo Castanheira, Tudo-Faço

técnico de vídeo
Hugo Valter Moutinho

montagem
ÁudioLuís Aly

tradução
Isabel Leite Silva

fotografia de cena
João Tuna

produção executiva
Sofia Carvalho

operação de som
Rui Pedro Rodrigues

operação de luz
Marta Nunes

operação de vídeo
Hugo Valter Moutinho

montagem

Condições Necessárias:

sala
Área de palco 10m boca de cena + corredores laterais = 16m por 14 m de profundidade.
Boca de cena 10m por 9m (a altura poderá ser inferior a 9m)

teia
12 Varas para luz
4 Varas + 4 Bambolinas
3 Varas + 3 Cortinas pretas
1 Ciclorama …
2 Varas para suspender cenário a 3m de altura
2 Varas para o saco de serrim
1 Vara para marionetas

estruturas
10 Torres laterais com 3m
06 Torres laterais com 2m
06 Escadas laterais suspensas

dimmers
Dimmers digitais de 360 circuitos de 16 A

staff necessário
1- Direcção de Cena
2- Técnico de Luz
1- Técnico de Som
1- Técnico de Vídeo
2- Técnicos de Palco
2- Contrarregra
2- Assistentes de guarda-roupa

tempo de montagem
3 Dias

cenografia

descrição
Estrutura metálica suspensa a 3m de altura, 6 janelas de alumínio com 1m por 3m + 1 janela com 1,5m por 3m. As janelas são suspensas na estrutura em 3 calhas paralelas à boca de cena.
8 janelas com 1m por 2m aplicadas em 8 bases rotativas.

espaço necessário
Boca de cena – 10m + corredores laterais = 16,5m
Profundidade do palco – 10m + ciclorama = 14m

varas
São necessárias duas varas disponíveis para suspender a cenografia

anexos
Planta e alçado do cenário (anexo 3)
Vista do cenário (anexo 4)

iluminação

Material necessário:
45- Projetores de recorte Robert Juliat 614S 1000W, Zoom 13/42
18- Projetores de recorte Robert Juliat 614SX 1000W, Zoom 15/38
16- Projetores de recorte Robert Juliat 714S 2000W, Zoom 12/43
04- Projetores de recorte Robert Juliat 714SX 2000W, Zoom 15/40
52- Projetores de recorte CCT ZO 602P 650W, Zoom 17/35
16- Projetores ADB PEBBLE-CONVEX C103 1000W
04- Projetores CCT ZO 644 PC 650W 10/59
09- Projetores de ciclorama CCT Starlette 4 em quadro 1000W
09- Projetores de ciclorama Strand Orion 4 em rampa 1000W
01- Studio Spot 575 CMY HighEnd
08- Scrollers Diafora p/ 30 cores/cada 8.66” e P. Comunicação DMX 512
02- Scrollers Rainbow p/ 12 cores/cada 15” e P. Comunicação DMX 512
1- Mesa AVAB PANTHER 1536 Canais/ 1024 Dimmers Avab VLC/SAFAR

dimmers
Dimmers digitais de 360 circuitos de 16 A

estruturas
10- Torres laterais com 3m
06- Torres laterais com 2m
06- Escadas laterais suspensas

anexos
Desenho de luz (anexo 5)

som

Material necessário
Amplificação de sala e Munição de Palco
Mesa de som – 12 vias
2 Microfones emissores – Sennheiser ew500 / ME3
1 Processador de efeitos – Korg Kaoss Pad
2 Leitor de CD

vídeo e legendagem

Material necessário
1 Projetor de vídeo – min. 2000 ansilumens
1 Projetor de vídeo – min. 400 ansilumens
2 leitores DV / MiniDV
1 Mesa de mistura
1 Painel de legendagem + Controlo remoto
2 Scrollers (incluidos no material de iluminação)

anexos
Implantação de projetores e painel (anexo 6)

maquinaria e efeitos especiais

teia
3 Cortinas pretas móveis – 11m / 12m
8 Pernas fixas – 1,5m / 11m
6 Pernas fixas – 2,5m / 11m
Vara p/ marionetas
Saco com serrim – 2 Varas unidas por pano preto furado que contém 500 l de aparas de madeira, estas varas são contrapesadas e operadas manualmente em simultâneo permitindo fazer cair o serrim gradualmente.

Material necessário
5 Sacos de 100L de serrim (aparas de madeira)

anexos
Implantação (anexo 7)

apoio
Camarim para 7 pessoas.

duração do espetáculo: 1h15

número de atores: 5

número de técnicos: 2

classificação etária: Maiores de 12 anos

questões legais
Deverá ser solicitada pela entidade promotora, à Direcção Geral de Espetáculos, autorização para a realização do espetáculo.

menções obrigatórias em todo o material promocional do espetáculo:
Estrutura financiada por SEC/DGArtes (com inserção de logótipos)

A angústia citadina no mundo pós-moderno

Quando anoitece, como vivem as pessoas na cidade? Que sentimentos atravessarão os espíritos que deambulam por este mundo pós-moderno em permanente mudança? Estas são algumas questões que “assombram” “Paisagem Azul com Automóveis”, uma produção do Teatro de Marionetas do Porto, Teatro Nacional de S. João (TNSJ) e Porto 2001.

A busca empreendida pelo Teatro de Marionetas do Porto (TMP) nos últimos anos tem apontado, inequivocamente, numa direção: a aproximação do teatro à vida contemporânea. É ai que procuram o que João Paulo Seara Cardoso, diretor artístico do TMP, chama de “matéria teatrizável”. E o que é “importante no mundo de hoje”, considera Seara Cardoso, “é uma densidade da vida que é trazida pelas novas cidades, pela velocidade das coisas, por novos conceitos”, o que, inevitavelmente, gera na cabeça das pessoas novos sentidos e novas formas de relacionamento. É sobre esse “mundo pós-moderno” em que (sobre)vivemos – um mundo caracterizado por uma certa massificação, por uma certa incomunicabilidade e pela perda de conceitos – que o TMP procura refletir. “As pessoas hoje são mais felizes?” ou “Como é que as pessoas se relacionam?” são algumas das questões que a companhia tenta pôr em jogo nas suas produções e, particularmente, em “Paisagem Azul com Automóveis”, onde o experimentalismo, que sempre foi a sua imagem de marca, é levado por novos caminhos.

O modo como as vivências no mundo pós-moderno são abordadas nesta produção não ´r óbvio, já que tudo se passa a um nível muito simbolico: é um teatro de sinais que o público terá que descodificar. “Nada é dado ao público de mão beijada”, afirma o encenador, há um apelo constante “à sua sensibilidade, à sua inteligência e às suas esperiências”. No fim, o objetivo é claro: “quero que as pessoas que assistem a este espetáculo, por mais denso que seja a nível de signos teatrais, sintam ressonâncias daquilo que estão a ver nas suas vidas”.

O que irão ver é, no fundo, uma “história de amor”, admite, um pouco hesitante, Seara Cardoso. Uma história de “encontros e desencontros” de um personagem, que pode ser definido, “subtilmente”, como o principal, como figuras femininas ou fantasmas de figuras femininas. É na cabeça desse personagem que se irá desenrolar “uma certa realidade”, que o próprio encenador tem dificuldade em discernir. “Neste momento tenho alguma dificuldade em falar da peça”, reconhece. “Este é um caminho estranho, penso que andamos muito no interior das pessoas e muito pouco no exterior”, diz. Tudo se desenrola ao nível onírico, das inquietações, do que se passa dentro da cabeça dos personagens, numa cidade, “talvez à noite”: “vejo esta história a passar-se à noite”, reflete o encenador.

O choque entre Marionetas e Actores

Depois de “Macbeth”, “em que o texto foi o elemento primordial”, agora a grande curiosidade de Seara Cardoso, é qual será a sensação do público perante um “espetáculo superexperimentalista”, em que os códigos teatrais se confundem e têm todos a mesma legibilidade e importância. Ou seja, neste espetáculo o texto existe, mas “está ao mesmo nível das luzes, da banda sonora, do movimento, das marionetas”. Há uma rede de signos teatrais que estão sempre a cruzar-se, o texto não é tudo. Até porque, nesta era da comunicação e da “ditadura” da imagem, se calhar, arrisca o encenador, “o mais importante dos nossos espetáculos será a imagem, o que se vê”. Uma coisa salta à vista nesta nova produção do TMP é a ausência total das mesas de manipulação criando um inusitado espaço de convivio direto entre marionetas e atores. À coexistência no palco de atores e marionetas não é novidade no TMP – desde há muitos anos que á prática formal da companhia – , mas a “libertação”, porque é de libertação que se fala, das “grilhetas” da tradição foi gradual. Primeiro foi a suspensão da tradicional barraca, que escondia os atores, rasgando-se o espaço, que passa a ser um palco enorme onde atores e marionetas passam a conviver, trazendo uma “teatrilidade e possibilidades infindáveis” – é chamada manipulação à vista. Dentro desta técnica, o TMP especializou-se no que se chama teatro sobre a mesa, oq ue na prética significa que nos espetáculos o cenário passou a ser quase sempre o chão – o recente “Macbeth” é paradigmático dessa opção.

Um novo caminho

Para “Paisagem Azul…” empreenderam um novo caminho: “decidimos que as marionetas, desta vez, não iam ter nada onde pousar”, explicou Seara Cardoso. “Ou voavam, que é uma das características delas, não têm peso, ou quando precisarem de pousar pousam em cima dos corpos das pessoas que as animam”. Assim, no fundo, o principio técnico desta criação foi uma pesquisa das relações do corpo do ator com o corpo da marioneta, sem mais nada, no vazio absoluto.

Integrado na programação da Capital Europeia da Cultura – coprodução do TMP, do Porto 2001 e do Teatro Nacional de S. João – o espetáculo já estava programado antes dessa inclusão, daí que não tenham existido quaisquer condicionalismo. Aliás, diz Seara Cardoso, o “que determinou a forma final do espetáculo foi a mudança da apresentação para o TNSJ, porque é um palco maior do que aquele que tinhamos pensado para ele”.

Andreia Marques Pereira
in “O Primeiro de Janeiro”, 3 de setembro 2001


O Teatro de Marionetas do Porto no Teatro de S. João, no Porto

Depois de uma destemida e rigorosa incursão pela dramaturgia de Shakespeare, o Teatro de Marionetas do Porto participa agora do roteiro multidisciplinar do PoNTI estreando, a 13 de setembro, no teatro Nacional de S. João – Paisagem Azul com Automóveis.

Um regresso à matriz mais experimental do trabalho que o encenador João Paulo Seara Cardoso – mais do que um agente teatral, um criador e um líder artístico – há muito desenvolve, ao investir na deputação dos movimentos em cena, na sofisticação da relação com áreas criativas como a música e artes plásticas, no recurso às novas tecnologias e num work in progress partilhado por todo o coletivo de criadores e intérpretes.

Pela primeira vez na história da companhia, desaparecem por complecto as mesas de manipulação e os fatos pretos que mitigam a presença dos manipuladores, abrindo-se neste espetáculo um imprevisto espaço de convívio e choque entre marionetas e atores.

E reincidindo na colaboração com Júlio Vanzeler – quem viu as feições e os figurinos das marionetas de “Macbeth”, não os esquecerá tão fácilmente -, Seara Cardoso ativará o trânsito desses duplos de nós próprios, que ora divertem ora assombram, numa poética paisagem urbana que o automóvel atravessa como personagem central.

Posto isto, o convite fica feito: vá ao Teatro de S. João e assista ao Teatro de Marionetas do Porto designado “Paisagem Azul com Automóveis”, com estreia marcada dia 13 de setembro e com a promessa de ficar em cena até dia 30 do mesmo mês.

in “olaporto.com”, 7 de setembro de 2001


Caos mecanizado da vida urbana

“Paisagem Azul com Automóveis”, do Teatro de Marionetas do Porto, estreia hoje, no Teatro Nacional S. João

Busca incessante de contemporaneidade nas linguagens teatrais tem sido a força anímica do Teatro de Marionetas do Porto (TMP). Gradual, mas generoso, o empenho do encenador João Paulo Seara Cardoso tem-se traduzido por ameaças de inovação, no que respeita à conceção e manipulação de marionetas, outrotanto para a transversalidade que já denunciara e que agora concretiza, de um modo mais aparatoso, no espetáculo “Paisagem Azul com Automóveis”. Trata-se de uma coprodução do TMP, Teatro Nacional de S. João (TNSJ) e da Porto 2001, inserida na programação do PoNTI, que hoje estreia, às 21.30 horas, no TNSJ no Porto.

Corpos artificiais

“Paisagem Azul com Automóveis”, cujo elenco é constituído por Edgard Fernandes, Igor Gandra, Mariana Portugal, Sérgio Rolo e Tânia Gonçalves, aglutina novas linguagens cénicas, cruzando a dança e o audiovisual, numa continuada rutura com o tradicional espetáculo de marionetas.

As mesas deixam de ser o suporte da manipulação; as marionetas voam, isentas de peso, em ato de liberdade; a relação entre o corpo do ator e o da marioneta despoleta uma narrativa diferente da habitual. Ambos são cúmplices e aparecem transformados em “corpos artificiais propícios à criação de vazios habitáveis”, espaços onde a experiência alheia ganha o estatuto de habitante.

Alicerçado numa gestação sistemática, albergue de múltiplas personagens, o criador deseja libertar-se de si próprio, perder-se na imensidão e “cheirar-se na pele dos outros”.

“Síndroma de pixel”

A perda de identidade, aquilo a que Seara Cardoso chama “a síndroma de pixel”, é revista e simbolicamente transportada para a paisagem urbana atravessada por automóveis.

A velocidade, a solidão, a massificação, a rua, o apartamento e a incomunicabilidade fazem-se apanágio do tecido urbano e provocam um desassossego inconformista. È necessário encontrar “imagens ou sensações, ou simples coisas que um dia passaram por dentro ou ao lado das nossas vidas”, e repensá-las, porque “o dedo no gatilho é sempre o nosso e com ele matamo-nos vezes sem conte”.

A metáfora das exigências e dos paradigmas sociais são as manilhas que prendem os protagonistas às marionetas: carregam-nas como Atlas carrega o Mundo aos ombros; surgem atrelados a elas, como inconscientes seguidistas; tornam-se artificiais, como elas; são crucificados por elas.

Uma pergunta faz-se mote do espetáculo: somos verdadeiramente felizes? Os sentimentos são engolidos pela indiferença e pelo caos mecanizado da vida urbana. Não mais consideramos outros pontos de vista que não o próprio. “Paisagem Azul com Automóveis” é “um soco no estômago”, um apelo à reflexão, quando tudo parece corrompido. Súbito, uma história de amor acontece.

Filomena Serrano
in “Jornal de Notícias”, 13 de setembro 2001


“O dedo no gatilho é sempre nosso”

“Paisagem Azul com Automóveis” é uma proposta para os sentidos. Estreia hoje no S. João, no âmbito do PoNTI, a nova peça do Teatro de Marionetas do Porto encenada por João Paulo Seara Cardoso.

É um ambiente futurista, com referâncias cinematográficas, entre o “Blade Runner” e o “Matrix”, que se desenrola “Paisagem Azul com Automóveis”, a nova encenação de João Paulo Seara Cardoso, do Teatro de Marionetas do Porto (TMP). Com este trabalho marca-se a estreia do TMP no festival PoNTI, do Teatro Nacional de S. João.

Para João Paulo Seara Cardoso um espetáculo de marionetas deve ser “aglutinador de linguagens cénicas”. Nesta nova peça, essa característica é absolutamente visível, sendo praticamente inexistente a fronteira que separa o teatro da dança ou até da música ou das artes plásticas.

Utilizados como signos, todos os meios contribuem para a criação de um ambiente futurista que, para o encenador, não é mais do que o mundo atual. “A peça quer despertar uma reflexão sobre a nossa vivência contemporânea, um certo sentido de urbanidade”, diz. O encenador considera que o cinema faz esse tipo de reflexão melhor do “que não soube acompanhar essa vertente”.

Talvez por isso as referências ao cinema sejam óbvias, originando que, de certa forma, a peça acabe por cair em lugares comuns.

Logo no início entra-se num ambiente próximo do filme “Blade Runner”, que depois se transforma no mais recente “Matrix”. A realidade virtual, os jogos de computador ou a identidade perdida são temas explorados ao máximo como no filme dos irmão Andy e Larry Wachowski.

Chega até a haver uma cena de luta onde o personagem luta contra um inimigo invisível, como num jogo de realidade virtual. Mas esta é só uma das muitas coincidências com “Matrix”. “Ao longo do espetáculo, o público recebe sinais de velocidade, solidão e massificação, características do mundo pós-moderno de incomunicabilidade”, diz o encenador.

No desespero de quem não quer aceitar o mundo tal como ele é dado, surge uma frase “o dedo no gatilho é sempre o nosso”. A esperança aqui parece uma utopia. Aceite-se ou não os parâmetros do mundo não é possivel a liberdade.

No fim, contudo, esse pessimismo á contrariado. A personagem pergunta porque não poderá voar e acaba a atirar-se de uma janela. A última cena, esteticamente belíssima, é um símbolo à liberdade, admite João Paulo Seara Cardoso, acrescentando que “quem já viu a peça diz que esta “tem um final feliz”.

No meio do mundo que é descrito aparece outro sinal de esperança – o amor. Diz o encenador que optou por inserir na peça uma pequena história de amor. Pegando no mote de Cat Stevens – “quero-vos dizer que tudo o que aprendi é que o amor é tudo” – esse sentimento é outra via, apesar de “as pessoas terem hoje em dia uma vivência de sentimentos diferentes das gerações passadas”. A pergunta “como podem neste mundo sobreviver os sentimentos?” fica então em aberto.

Artes visuais em palco

O espetáculo aposta mais nas artes visuais e sonoras do que no texto, de Steve McAllister.Grande parte dele nem é traduzido do inglês. João Paulo admite que foi uma opção não traduzir o texto na sua totalidade, pois a maior parte do que é dito só interessa como sonoridade. “Quando vamos na rua ouvimos as pessoas a falar e isso não passa de um som, porque não percebemos o que estão a dizer”, considera.

A música aposta na eletrónica, o que ajuda a criar um ambiente robótico, acompanhado pelos movimentos das marionetas, dos atores e dos atores-marioneta.

Não acrescentando conceptualmente nada de novo, “Paisagem Azul com Automóveis” vale sobretudo pelo perfeiccionismo técnico e pela beleza plástica. As marionetas foram uma obra de Júlio Vanzeler, que concebeu também os inspirados figurinos em conjunto com Patrícia Valente. Os vídeos projetados são de António Real e o magnífico desenho de luz de Jorge costa.

O elenco é composto por Edgard Fernandes, Igor Gandra, Mariana Portugal, Sérgio Rolo e Tânia Gonçalves.

Luisa Marinho
in “O Comércio do Porto”, 13 de setembro 2001


O céu como escape para o fumo dos sentimentos

“Paisagem Azul com Automóveis”, do Teatro de Marionetas do Porto, estreou ontem no S.João. Um retrato da urbanidade.

A palavra contemporaneidade tem atravessado cada vez com maior insistência todos os setores da arte, preocupados, por vezes mesmo obcecados, em produzir objetos que transportem sinais dos tempos que correm e nos inspiram a uma reflexão sobre o modo como vivemos. Se há domínios criativos em que esse propósito tem sido atingido com alguma frequência, outros evidenciam uma inquietante dificuldade em concretizar tais intentos. É, ou pelo menos tem sido, o caso do teatro, ora cativo do seu estatuto de mais antiga arte dramática, regendo-se por atavismos e preceitos desajustados da realidade atual, ora falho de criatividade e ousadia, limitando-se a apanhar e a reenquadrar num discurso entediante e estereotipado os restos deixados por outros setores artísticos, como á o caso do cinema.

Em Portugal, entre os poucos desvios registados a esta regra têm figurado as propostas do Teatro de Marionetas do Porto, sobretudo a partir de Exit (1998), que assinalou, como o próprio título sugere, o início de uma procura de novos caminhos, definidos no universo de uma “linguagem aglutinadora” que não hierarquiza as vertentes cénicas de que se compõe. Paisagem Azul com Automóveis espetáculo estreado ontem por aquele coletivo no Teatro Nacional S. João, é o paradigma disso mesmo. Resultado de um processo experimentalista e fragmentário, enquadra cada pequena “conquista” num todo invulgarmente coerente, tanto mais assinalável quando rejeita o texto como o fio condutor, misturando-o com uma série de outros signos que tocam os sentidos do espectador e estimulam a tal reflexão sobre o mundo de hoje.

De uma ponta a outra, Paisagem Azul com Automóveis transmite-nos uma ideia tão perturbante quanto lúcida de urbanidade. Uma urbanidade veloz, caótica e massificada, feita de isolamento, de solidão, de incomunicabilidade, de violência, de desespero mudo, no interior da qual não se sabe se e como os sentimentos podem sobreviver. Daí que o espetáculo seja, fundamentalmente, para sentir, como forma privilegiada de compreender. Todos os elementos – do ambiente metálico e frio do cenário ao movimento maquinal dos atores, que se confundem com as marionetas, numa metáfora inteligente de humanidade, passando pelo frenesim eletrónico da música, sem esquecer a ambivalência plástica e semântica do texto – concorrem para um soco no estômago que, subitamente, por instantes, como frente a um oásis em pleno deserto, se suspende da beleza de uma história de amor.

Às vezes basta um gesto artístico para nos lembrar que, apesar do barulho dos automóveis, podemos sempre perder o olhar no céu azul. Foi o que fez João Paulo Seara Cardoso, encenador do espetáculo, e toda a sua equipa.

Marcos Cruz
in “Diário de Notícias”, 14 de setembro 2001


Apoteose do mundo contemporâneo

Falado (e cantado) em inglês, como nos espetáculos de “spoken words”; ecos de kafka, Borges ou Baudelaire; canções que remetem para Laurie Andersen; a sensação de plenitude de um filme. “Paisagem Azul com Automóveis”, em cena no S. João, é uma reflexão sobre a cidade e o mundo contemporâneo, eivada de poesia e de lugares vazios.

Primeiro, um fio de poeira, e, ao longe, um labirinto de fios de néon desenhado, pela passagem veloz dos automóveis. As luzes apagam-se e uma torrente de pó cai sobre a cidade, ofuscando o azul do céu, onde dança num voo de felicidade uma pequena marioneta. Que abandona a imagem viscosa de uma alegada asfixia urbana, e se liberta, voando sem sentido.

É com esta bela imagem que termina o espetáculo “Paisagem Azul com Automóveis”, pelo Teatro de Marionetas do Porto, cuja estreia aconteceu ontem, no Teatro Nacional S. João, no contexto da programação geral do PoNTI.

Depois de “Macbeth”, a última produção da companhia, estreada em fevereiro último, “Paisagem Azul com Automóveis” assume-se como uma autêntica viragem na linguagem estética que tem vindo a ser desenvolvida pelo grupo. João Paulo Seara Cardoso, encenador, decidiu “radicalizar” o percurso do grupo – algo que já se tinha sentido nas peças “Os Três Porquinhos” e “EXIT” -, inventando o papel das marionetas e dos atores. Desaparecem as mesas de manipulação – os corpos dos atores transformam-se em palco-, as marionetas libertam-se e rodopiam por todos os espaços de cena, num verdadeiro confronto com os atores. Dois meses em gestação foi o tempo necessário para a conceção de uma ideia-base, com a participação de todos os intervenientes na peça. Dois meses em que foram congeminadas e trabalhadas diferentes olhares sobre a(s) cidade(s), num exercício em que impera a imprevisibilidade.

Com um dispositivo cénico desenhado com formas geométricas e um belíssimo desenho de luz, da autoria de Jorge Costa, “Paisagem…” é totalmente falado (e cantado) em inglês, convertendo-se o texto num signo plástico baseado nos espetáculos de “spoken words”. Além de letras de músicas, extratos de filmes e discursos políticos, os artistas de “spoken words” representam uma “grande fonte de inspiração”, explica Seara Cardoso. Entre eles, Henry Rollins e a reconhecida “performer” gótica Lydia Lunch, que este ano poderá fazer parte (ainda sem confirmação) do cartaz do festival de “spoken words” Faladura, a decorrer nos primeiros dias de novembro, no Porto.

Nesta cidade-palco, onde a ação se desenrola a um ritmo estonteante, existe, de facto, uma reflexão sobre as sociedades pós-modernas. Ou melhor, sendo a cidade “cada vez mais um estado de espírito”, a questão que se impões é saber “como se vive do ponto de vista dos sentimentos numa sociedade pós-moderna”, diz o encenador. O encadeamento veloz do quotidiano, materializado numa síntese de impressões que Seara Cardoso recolheu em várias cidades do mundo, as vivências cosmopolitas, muitas delas eivadas de solidão, foram algumas das matrizes que construíram o espetáculo, subtil na sua interpretação de uma poética urbana.

No meio do caos, no ceme de uma imagística vida de uma pessoa na grande metrópole, “Paisagem…” movimenta-se entre ecos, apenas isso, de obras de Kafka, Thomas Bernhard, Jorge Luís Borges ou Baudelaire. E parece ser este último autor que mais se insinua no espetáculo, pela não descrição exata da cidade e dos seus habitantes. Como na obra “ O Spleen de Paris”, é a multidão anónima que se revela no palco, habitado por atores marionetas, e a apoteose da grande cidade, que, contudo, é atyravessada por uma história de amor. Pressente-se, a cada momento, uma dramturgia topográfica de diversas metrópoles, como se estas se transformassem numa linguagem própria, uma linguagem que condiciona todos os movimentos e gestos das figuras em cena.

Aprendam que o amor é tudo

quotidiano flui de uma forma quase banal – intervalo apenas por momentos de respiração-expansão das personagens e das marionetas que se multiplicam -, estando as figuras sujeitas a gestos automáticos, comandados por vozes que remetem para jogos de computador e para dessincronização dos mesmos. Apenas algumas frases do texto concebido por Seteve Mcallister a partir de colagens surgem no ecrã de tradução, e aquelas que perduram particularizam, incontornavelmente, o espetáculo: “vou-te dizer tudo o que aprendi/O amor é tudo”, retirado de uma canção de Cat Stevens; e “Estou sentado ao meu lado/na madrugada azulada/olho pela janela/Para a rua quente e movimentada/Apercebo-me que tenho frio e estou só/Usado como uma garrafa velha/As pessoas vivem e morrem/Nestes apartamentos compartimentados”, declara a figura solitária que, no final, observa a paisagem em tons de azul. É esta personagem, que parece viver numa constante solidão, que procura o mundo circunstancial – os encontros, o amor, a sobrevivência de sentimentos no vazio do mundo exterior. Como peixe que, entre muitos outros, enclausurados num pequeno aquário, sobressai e tenta não se perder numa tela de imagens enevoadas.

Num poema de Al Berto – “Acordar Tarde”, publicado no livro “Horto de Incêndio” -, pressente-se bem esta solidão: “irás sozinho vida dentro/braços estendidos como se entrasse na água/o corpo num arco de pedra tenso simulando/a casa/onde me abrigo do mortal brilho do meio dia”. É sobre este corpo, primeiro maternal, depois envergando uma pele mais sensual, que uma marioneta desenha uma dança solitária – um dos momentos mais ternurentos do espetáculo.

“Os corpos artificiais são propícios à criação de vazios habitáveis. A existência, a um mesmo tempo ou em tempos relativizados, de atores e marionetas, essas sublimes máquinas do desejo, metáforas do desassossego movendo-se entre a terra e o ar, fazem-nos afinal compreender o sentido do efémero”, escreve Seara Cardoso no programa de “Paisagem…”. É uma impressão de reconciliação e reconforto aquele que o encenador pretende verter para o público, fazendo uma analogia com a sensação de plenitude que se pode obter com o visionamento de um filme. Por isso, acrescenta, nota-se neste espetáculo uma busca quase obsessiva de “ressonâncias” da arte dramática com a realidade. Uma procura inevitável que escava o interior,mais ou menos oculto, das personagens, os movimentos das marionetas, a interpretação de canções que parecem remeter para alguns temas do álbum “Big Science”, de Laurie Anderson, ou a leitura de um certo cosmopolitismo que sustenta a solidão. A tal solidão sobre a qual também escreve Heiner Müller – “a solidão dos aeroportos”, esses lugares neutros, de passagem efémera.

É o mundo contemporâneo, então, que se afigura em “Paisagem…”, com todas as suas idiossincracias, explorando as ideias que desencadearam os recentes movimentos pró e contra globalização, aqui personificados num trabalho que mostra os dois lados da moeda: a poesia e o vazio que habitam as sociedades pós-modernas, independentemente das díspares definições que lhes atribuem os sociólogos. A poeira, essa, emerge sempre. Assim como o desejo de voar.

José Oliveira
in “Público”, 14 de setembro 2001


“Paisagem azul com automóveis”, que confirmam o lugar do Teatro de Marionetas do Porto como uma das grandes companhias mundiais de marionetas

O azul surge como descanso desejado, horizonte sempre longínquo, impossibilidade fatídica. A linguagem nesta “paisagem” é a da urbe, o inglês, mesmo descontextualizado de qualquer tribo especicífica, liga os sonhos e as contradições das personagens.

As personagens são núcleos de sentimentos reprimidos, confundem-se com as marionetas, confundem-se com cada um de nós.

O som. O som é avassalador, o desenho do som, da responsabilidade de Sérgio Rolo, merecia uma edição como “soundtrack” da peça. Se quiséssemos reduzir esta produção até a poderíamos chamar de musical. Mas a música (adequadíssima e “cantada” ao vivo) é apenas um dos elementos de uma magnífica e muito profissional orquestração de sons, movimentos (quase coreografias de companhia de bailado), expressões e cores, e, claro, também a manipulação mais próxima do teatro de marionetas clássico.

Um momento de grande intensidade á aquele em que uma marioneta parece querer despertar um corpo humano, aparentemente inerte, pesadamente imóvel. O pequeno “pinóquio emanipado” faz um pouco de tudo mas acaba por ser ele a arrastar o corpo do… amo? manipulador? “puppet master”? Talvez apenas um de nós! Uma das características mais arrepiantes deste “Paisagem Azul…” é a maneira como em palco os elementos ator/marioneta estão tão próximos. Fundem-se e separam-se, dançam e agridem-se, mas a ideia concreta de um Manipulador e um manipulado está a milhas de distância. Manipulados somos todos. E manipuladores também, porque não. O cerne das questões (apenas surgidas) está noutras lonjuras.

O motor das movimentações em palco é o maquinismo e a industrialização que articulam a sociedade pós-moderna.

A alienação violenta e a incapacidade de quebrar os “strings attached” que nem sabemos se realmente existem. Onde está, se existe, o Big Brother? Onde o botão off, para um descanso do strees? Onde o azul dos filmes que enchem os bolsos do sonho? Onde estamos?

Estamos e pensamos. Com espetáculos destes, temos que pensar, depois de sentir. Uma verdadeira tempestade emotiva, sem nada de trágico a acontecer em palco. Nunca o caminho da facilidade se insinua durante o decorrer de “Paisagem Azul…”

A identificação, a transferência, a dupla personalidade a aflorar, o trauma, o recalcamento, os contornos e desvios da mente e do coração fervem e tranbordam. Não me parece possível assistir a esta peça como se se tratasse apenas de um espetáculo visual grandioso. Dizia Seara Cardoso numa entrevista que a noção de marioneta tinha a ver com o uso de um elemento intermediário, não necessariamente um boneco antropormórfico. Parece que afinal o humano é que é “marionetormófico” tal como a tendência para a alienada condução da vida, para a ausência de consciência nos atos e atitudes.

Perante o estado das coisas apetece mesmo pegar no automóvel à procura do Azul (como na música dos Trovante). Afinal ninguém é imune e o cinzento corrói.

Nuno Ribeiro
in “vida.pt”, 19 de setembro 2001


Ruhmachrichten (tradução para português)

Com este quadro começa “Paisagem Azul Com Automóveis” do Teatro de Marionetas do Porto. O grupo era desconhecido na Alemanha, mas isso mudou depois do Fidena.

Viver ao Ritmo Techno
O Teatro de Marionetas do Porto apresentou duas produções no Fidena.

Talvez a peça não tenha agradado a todos, mas o TMP foi sem dúvida uma revelação no Fidena. O ritmo da música techno mistura-se com a dança em “Paisagem Azul Com Automóveis” num teatro moderno que levanta questões atuais e atrai os jovens.

Há barulho no hall centenário. Impelidas pelo ritmo da música, as pessoas correm pelo palco, sem se notarem umas às outras, andando sem parar. É a nossa sociedade urbana que os portugueses explicam num mundo parecido com um jogo de computador, no qual o que importa já não é a pessoa mas sim o mecanismo.

Os cinco atores entram outra vez – mais dançarinos do que atores – figuras que já não têm identidade própria, que são todas iguais. E então desafiam as pessoas: “My brain need some stimulation” canta um, e para finalizar evoca-se boa música rock antiga.
São cenas individuais e talvez este seja o ponto fraco da encenação, que acaba por não prender. São sequências individuais como a do dançarino que se deixa comandar pelo computador: “Fight, fight, danger, down, reload”, e depois não consegue atingir o nível proposto. O melhor são os momentos calmos e poéticos, como quando a marioneta dança para a mulher adormecida. Não é só espantoso de observar, é uma prova de que o grupo domina a ação.

Ruhmachrichten, 26 de março 2003

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Marionetas do PortoPAISAGEM AZUL COM AUTOMÓVEIS