MACBETH

Macbeth foi escrito por William Shakespeare provavelmente em 1606, num período particular da sua vida que veria nascer as suas grandes tragédias – Júlio César, Hamlet, Lear, Otelo, Timon de Atenas.

Para o enredo dramático de MACBETH, Shakespeare encontra inspiração nas crónicas de Holinshed sobre factos ocorridos na Escócia dos séc. X e XI. E, de uma forma genial, cruza na ação da peça dois factos históricos rreais: o assassínio do rei Duff por Donwald (967) e o assassínio de Duncan por Macbeth e o seu posterior reinado (1040/1057).

Ao fim de cerca de dois milénios e meio de história do Teatro e, com a devida veneração pelas grandes tragédias gregas, Macbeth é ainda a grande obra trágica universal que, de uma forma essencial, do ponto de vista narrativo, nos expõe e faz refletir sobre o amor e o poder como impulsionadores dos destinos do Homem.

A saga implacável do herói trágico Macbeth, tem ressonâncias inquietantes com o tempo que vivemos. É essa dimensão política da obra, que torna ainda mais intemporal.

Macbeth mata por amor, por ânsia de poder e por crença no sobrenatural.

E assim Shakespeare celebra nesta obra uma poética da morte e do amor, conduzindo-nos inexorávelmente pelos labirintos interiores do ser humano através de uma linguagem intensamente poética.

Sobre a encenação de Macbeth
Comunicação apresentada na Conferência Shakespeare entre nós

Por João Paulo Seara Cardoso

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Macbeth
encenação e cenografia
João Paulo Seara Cardoso

texto
William Shakespeare

tradução
João Palma-Ferreira

marionetas e figurinos
Júlio Vanzeler

música
Roberto Neulichedl

desenho de luz
Jorge Costa

produção
Sofia Carvalho

interpretação
Edgard Fernandes, João Paulo Seara Cardoso, Marta Nunes, Sérgio Rolo

operação de som
Joclécio Azevedo

operação de luz
Virginia Esteves, Rui Pedro Rodrigues

pintura de marionetas
Emília Sousa

assistente de encenação
Joclécio Azevedo

assistente de produção
Paula Anabela Silva

movimentos especiais
Isabel Barros

coordenação de construção
Marcelo Lafontana

técnicos de construção
Abílio Silva, Alexandra Pires, Júlio Alves, Rui Pedro Rodrigues, Vitor Silva

confeção de figurinos
Branca Elísio

construção de cenografia
Américo Castanheira, Tudo Faço

montagem técnica
Vírgina Esteves, Miguel Teixeira, Rui Maia

montagem vídeo
António Pires

fotografia de cena
Susana Paiva

design gráfico
Júlio Vanzeler

agradecimentos
Valentim de Carvalho, Livraria Civilização Editora

apoio
Balleteatro Auditório

espaço cénico
dimensões: boca de cena: 11m
profundidade: 12m
altura; 5,50m
panejamento preto em todo o envolvimento do palco
chão: linóleo preto ou madeira
4 pernas laterais

luz
mesa de luz programável
número de canais: 61
projectores

som
amplificação, mesa de mistura (mínimo: 12 canais), colunas de público e colunas de palco; 1 microfone fixo para voz; 1 processador de efeitos;
equipamento da companhia: 4 microfones emissores;
1 processador de efeitos

vídeo
equipamento da companhia: câmara V8; projector de vídeo LCD; mesa de mistura vídeo.

montagem

staff necessário
1 técnico de palco
1 técnico de som
2/3 técnicos de luz

tempo de montagem do cenário
2h00

tempo de montagem de luz, som e vídeo (estimativa variável em função das condições técnicas e do pessoal de montagem)
20h00

apoio
camarim coletivo ou camarins individuais para 4 pessoas

número de elementos da companhia
4 atores
1 operador de luz
1 operador de som
1 operador de vídeo

classificação etária: maiores de 12 anos

menções obrigatórias em todo o material promocional do espetáculo:
Estrutura financiada por SEC/DGArtes (com inserção de logótipos)

A noite mal dormida de Macbeth [TMP]

Macbeth, de Shakespeare, pelo Teatro de Marionetas do Porto
Porto, 19 de Setembro

As palavras que Shakespeare pôs na boca das personagens desta peça, e a própria maldição em torno de um texto cujo título não se deve pronunciar, faz com que Macbeth esteja para a obra do bardo um pouco como os filmes das histórias de Edgar Allan Poe para o cinema. Cheia de vermelhos saturados e sombras que se parecem mexer, esta ficção bem se poderia chamar A Maldição da Casa de Macbeth, se tivesse sido feita uma adaptação pelos estúdios da Hammer.

Atualizando a leitura gótica da peça, nesta produção as marionetas trajam figurinos lembrando as cenas de Matrix e do primeiro Mad Max, e as figuras evocam desenhos de Bilal ou vinhetas da Marvel, mais do que um filme de Roger Corman. De igual modo, Macbeth não fala como um escocês antigo, mas como um tirano moderno, sinistro em trajes de cabedal.

A versão da peça é curta e enxuta, expondo com clareza toda a violência do enredo e retendo, da panóplia de imagens do texto, sobretudo as relativas às insónias do tirano e ao sonambulismo de Lady Macbeth. Estes vão aumentando com o bodycount, fazendo dos protagonistas autênticos mortos-vivos. A recorrência das referências às noites mal dormidas bate certo com um espetáculo contado como um pesadelo em que bonecos de madeira ganham vida, e sonhado como uma versão sci-fi de Macbeth.

Os escrúpulos de Macbeth cedem à ambição, alimentada pelas profecias das bruxas e pelos conselhos da esposa. Macbeth receia a profecia, porque ela fá-lo abdicar do seu carácter avisado e dar rédea solta ao lado assassino. Ao mesmo tempo, anseia a desculpabilização. O usurpador precisa de uma outra ordem do real, por trás da aparente, para justificar as suas ações, e as bruxas surgem como as grandes manipuladoras dessa invisível conspiração para favorecê-lo.

A profecia como expediente de predestinação permite a Macbeth agir como se a responsabilidade fosse alheia. Mas Macbeth sabe, no seu íntimo, que não passa de um usurpador, por um lado, e que está sendo usurpado, por outro, como uma marioneta inanimada precisa de quem o manipule. Tal como mata, e agindo assim se sente vivo, vê-se a si próprio já morto, a curtíssimo prazo, na companhia daqueles a quem tirou a vida. Quando as bruxas lhe dizem que só poderá ser morto por um homem que não tenha nascido do ventre de uma mulher, e que só será derrotado quando as árvores da floresta marcharem, o que, à primeira vista, parece impossível, Macbeth sossega um pouco. Mas um exército de madeira, chefiado por um ser artificial, ganhará vida e castigará aquele que se deixou fazer de fantoche. Simpatizamos com o assassino, primeiro, e ficamos aliviados com a sua morte, depois, porque queremos estar do lado de quem manipula, não de quem está inanimado. Nada como um espetáculo de marionetas para iluminar este lado da peça de Shakespeare. A sonâmbula Lady Macbeth, o fantasma de Banquo ou as árvores em marcha, encarnados por marionetas, dão bem a medida do horror de Macbeth. Já imaginou o que seria se todas aquelas marionetas, a mando das bruxas, se voltassem contra nós?

Jorge Louraço Figueira
in “Jornal de Notícias”, 23 de setembro de 2008


Macbeth no país das marionetas

Peça de Shakespeare, numa produção do Teatro de Marionetas do Porto, estreia hoje no Balleteatro Auditório.

Pesquisa

Para clarificar um pouco as ideias, uma primeira nota. Todo o percurso do Teatro de Marionetas do Porto tem sido assinalado por um trabalho de pesquisa. Uma vontade de experimentar nas margens do limite, sem perda da lucidez estética e sem cair em formatos fáceis. O que levou a companhia a mergulhar numa obra da maior dramaturgia universal tem uma explicação simples. João Paulo Seara Cardoso aponta que, a partir de certa altura, sentiu necessidade de abordar um grande texto. Ponto final. Nada de transcendente, apenas uma espécie de produção anormal no registo do Teatro de Marionetas do Porto. O que pode, então, ter de interessante este “Macbeth”?

Sem sobressaltos

O facto de se tratar de um espetáculo de marionetas, já confere alguma singularidade quando se está a falar de uma peça de Shakespeare. Isto acrescido de uma encenação de Seara Cardoso – com excelente trajeto também fora das marionetas, como os trabalhos que assinou para os Visões Úteis -, agora assumidamente menos arriscada para valorizar o texto.

Cerca de 40 marionetas evoluem ao longo desta montagem de “Macbeth” (circunscrita ao essencial da ação, com cortes de cenas acessórias). Bonecos com um metro de altura, ativados por apenas quatro manipuladores/atores. Sem sobressaltos, o desdobramento da manipulação processa-se de uma forma bem articulada, com mudanças de cena e com o desenho de som, o que confere ao espetáculo uma linha sem quebra de ritmos.

Distanciamento

Outra nota, característica da companhia, é que as marionetas são manipuladas com os atores parcialmente expostos. Exposição que se reflete também na voz – amplificada -, traduzindo assim um assumido distanciamento entre o modo de operar e o próprio espetáculo.

Sem perder a carregada atmosfera que envolve a peça “Macbeth” é decisivamente marcado pelo recurso à plasticidade que as marionetas proporcionam. A leveza, em contraste com o peso, é uma ideia recorrente, dualidade que se pode verificar também no jogo de luz e sombras e no rasgar de sons agrestes na cadência do espetáculo.

Luís Bizarro Borges
in “Jornal de Notícias”, 2 de fevereiro de 2001


Macbeth de cabedal vermelho vivo

É um Macbeth avassalador, o que o teatro de Marionetas do Porto estreia hoje, no Balleteatro Auditório. Até quem conhece o texto de cor se vai surpreender.

Era uma vez um Macbeth-miniatura de cabeleira loira, teso e tenso num fato quase “glam” de cabedal vermelho faiscante, carregado de prenúncios de sangue, desvario, ambição e morte no cenário fantasmático de uma Idade Média escosesa, devidamente transfigurada pela imaginação shakesperiana.

Novidade? Nem por isso. Mas, por uma vez, o Teatro de marionetas do Porto esqueceu a obsessão experimental e abdicou do espanto costumeiro que costuma acompanhar a construção dos seus espetáculos, num “work-in-progress” feito em cima do palco que dispensa textos prontos-a-usar. Por uma vez, a companhia vestiu um clássico, aventurou-se num texto-chave da grande dramaturgia universal e regressou aos espetáculos que vivem da palavra. Pelo prazer de contar uma história.

“Back to basics”

Há uma intenção óbvia e descarada neste “Macbeth” que consuma a estreia do Teatro de Marionetas do Porto no ano de todos os acontecimentos: cingir a encenação ao essencial da intriga para que a ação resulte avassaladora e a imersão do espectador na espectativa do desenlace seja total. Podaram-se excessos, limaram-se diálogos dispensáveis, subtrairam-se ações secundárias. Uma intervenção meticulosa que deu à luz um “texto compacto, liberto de acessórios dispersos e capaz de emprestar eficácia narrativa à peça”, resume o encenador e intérprete João Paulo Seara Cardoso. Que acredita piamente na possibilidade de este “Macbeth” ser uma descoberta: haverá muito quem conheça de cor a história de desumanização do soldado escocês que Shakespeare construiu numa brilhante metáfora do poder, mas também não faltará no Porto um público esperimentado nos clássicos.

Para esses, vale a pena reconstruir a trama na linguagem outra das marionetas, sem perder pitada dos ingredientes mais geniais e de uma generosa dose de “suspense” à boa maneira “hitchokiana”: “Gostaria que o espectador ficasse suspenso na cadeira à espera do desfecho”, explica o encenador. O trabalho, entenda-se, foi sobretudo de arqueologia – a companhia comprometeu-se a recuperar a tradição mais depurada do teatro clássico. “Quisemos criar muita tensão dramética, algo que parece esquecido no teatro mais contemporâneo”, explica o encenador.

Mas reforçar a narrativa da peça passou também por um esforço quase psicanalítico – os atores dissecaram as razões de William Shakespeare, a faceta mais negra de um dramaturgo colossal que fez o teatro todo. “Começamos por tentar compreender o que levou Shakespeare a escrever uma coisa tão negra naquela altura da sua vida”, lembra João Paulo Seara Cardoso, que também assina a cenografia. Mas não só: o trabalho de detective também fez noutra vertente, em busca de ressonâncias com a atualidade, feiticeiras e sobrenatural à parte. “Só assim faz sentido fazer clássicos”, argumenta.

E o que têm de macbethiano os tempos que correm? Tudo. “Acho que esta é uma bela história de amor. Além de uma tragédia claramente política sobre o poder, um tema que será sempre atual – continuamos sempre rodeados de pessoas destas, mais “soft” ou mais “hard”, mais europeias ou terceiro-mundistas. O mundo está cheio de Macbeths”, conclui.

Trevas e cabedal vermelho

Talvez a imagem mais forte do “Macbeth” que hoje estreia no Balleteatro Auditório seja o imenso friso de marionetas penduradas num varão de roupeiro à volta do palco, numa involuntária sugestão de exércitos, massas humanas e carnes para canhão – materiais que constituem, afinal, parte do universo bélico e sanguinário do texto de Shakespeare. À medida que se tornam necessárias, as personagens do guarda-fatos ocupam o palco e dão corpo a uma ação depurada e feita de gestos essenciais.

Dos primeiros presságios lançados pelas irmãs do destino, entre gargalhadas roucas, gritos demoníacos e feitiços borbulhantes – “ferrão de verme, asa de coruja, escama de dragão, dente de lobo, raiz de cicuta arrancada no escuro, fel de bode, dedos de criança recém-nascida degolada por uma meretriz… Que o fogo arda a caldeira!” – à morte sem glória do anti-herói da história – “Paz que o encanto já está feito” -, percorre-se a queda em desgraça de uma personagem sem remissão. O mergulho das trevas é assumido por uma cenografia pouco luminosa e assente na ampliação dos mais negros estados de alma. Em palco, sobressaem o covil das bruxas e o vermelho vivo do cabedal de Macbeth, soldado premiado, senhor de Glamis, assassino convertido, rei atormentado, tirano sem regresso. O propósito de contenção é bem servido e há realmente som e fúria – “suspense” também, já agora – até ao final. Como num conto dito por um idiota qualquer.

Inês Nadais
in “Público”, 2 de fevereiro de 2001


Um “Macbeth” feito com bonecos articulados

Em vez da maldição associada a esta tragédia, a Companhia de Marionetas do Porto soube que aprovaram o seu novo teatro

Como fala uma marioneta? Qual a forma de dizer “assemelha-te à cândida flor que tem sob ela uma serpente”? Que expressão para revelar o medo ou a traição que se pode retirar de um rosto rígido?

João Paulo Seara Cardoso, em detrimento da sua habitual pesquisa, aceitou o desafio de enfrentar um clássico da literatura universal e encenou Macbeth no Teatro de Marionetas do Porto. A tragédia de Shakespeare, mesmo numa versão mais curta, como a que está em cena no Balleteatro Auditório, mantém toda a sua beleza das falas, a sua intriga poderosa, o suspense das cenas.

Quatro atores manipulam dezenas de marionetas, na sua maioria bonecos articulados com cerca de um metro de altura, mas também outras que variam desde as feiticeiras que pairam “pela névoa e pelo ar imundo”, feitas na tradição dos robertos, até figuras de dimensão humana, como uma Lady Macbeth que enlouquece porque “nem todos os perfumes da Arábia poderiam dulcificar estas pequenas mãos”. Além das sombras e projeções, sons de corvos e trovões, o espetáculo tem soluções distintas para salientar a maléfica superioridade de Lady Macbeth sobre o marido, a violência do assassínio de Duncan no castelo de Inverness, o fantasma de Banquo que passa sobre a mesa do banquete, o exército de Malcom disfarçado de bosque de Birnam que avança para Dunsinane conforme a profecia.

E a maldição que se associa à montagem desta tragédia? “Até deu sorte”, ironiza Seara Cardoso, “porque foi aprovado o projeto do nosso futuro teatro”.

F. M.
in “Diário de Notícias”, 3 de fevereiro de 2001


A cabeça que repousa na cadeira

No Balleteatro Auditório, no Porto, “Macbeth” termina com a cabeça de Macbeth, solitária, pousada numa cadeira que se esconde atrás de uma janela fosca.

Estreou a 2 de fevereiro, e poderá ser visto até 25 do mesmo mês.

É uma nova produção do Teatro de Marionetas do Porto, com encenação e cenografia de João Paulo Seara Cardoso, música feita de vestígios longínquos de outras músicas por Roberto Neulichedl, e operação de som de precisão cirúrgica a cargo de Joclécio Azevedo.

A música e o som são tão importantes como as palavras nesta adaptação da peça de William Shakespeare. São esses elementos que, em conjungação com uma judiciosa compartimentação do palco em espaços e tempos distintos através da iluminação, contribuem decisivamente para conferir a este “Macbeth” as cores sombrias que remetem a narrativa e os seus ambientes para um contexto temporal indefinível.

Todo o ambienye da encenação é carregado, trágico, cerebral, angustiado, sobrenatural. Cada peão nesta história de poder, ambição e morte, é um ser solitário. O poder máximo, tal como Macbeth o saboreia por alguns anos, contamina os seus detentores com o cansaço e a sombra do terror. A sua morte pode ser vendida cara, mas deixa o sabor do descanso desejado, do fim de um tormento que não cessa de derramar sinais: as bruxas que revelam premonições desde uma espécie de aquário vermelho, os fantasmas que assombram à janela, a loucura da sua esposa.

Mais uma vez, a equipa do Teatro de Marionetas do Porto consegue transmitir tudo isto com um espetáculo total, em cenários, luz, som, atores humanos e atores-marionetas não podem ser arrancados deste quadro minucioso, sob o risco de ficar algo de extrema importância. Por outras palavras: em “Macbeth”, nada é adereço.

Jorge Manuel Lopes
in “Net Parque”, 13 de fevereiro de 2001


Macbeth, a marioneta

Notável a interpretação e manipulação das marionetas por João Paulo Seara Cardoso, Edgard Fernandes, Marta Nunes e Sérgio Rolo.

Foi no Porto, em meados do decénio de 50, que se representou pela primeira vez uma das obras da maturidade de William Shakespeare: “Macbeth”. A iniciativa coube ao Teatro Experimental do Porto (TEP), que apresentou a tragédia numa encenação e tradução de António Pedro. Cerca de cinco décadas volvidas – e quatro séculos depois da sua conceção -, “Macbeth”, a obra maldita, regressa aos palcos da cidade, desta feita pela mão do Teatro de Marionetas do Porto. E foi em boa hora que a companhia, dirigida por João Paulo Seara Cardoso, deixou de lado uma vertente mais experimentalista,, dotada de textos inéditos, para se deixar envolver por uma peça que eleva a palavra ao seu mais significativo estatuto, uma peça de texto, quase inescrutável.

Esta adaptação de “Macbeth”, encenada por João Paulo Seara Cardoso, é, a vários títulos, notável. Não apenas pela originalidade dos figurinos – Macbeth, os generais do exército real e os nobres escoceses surgem sob uma roupagem de cabedal luminoso -, ou pelo adequado semblante das marionetas, ambos da autoria de Júlio Vanzeler.

No palco do Balleteatro Auditório, o espetáculo é um deleite para os olhos e para os ouvidos, pois sob o eficaz desenho de luz de Jorge Costa desenrola-se uma história, que, contada por marionetas, prodigaliza um conjunto de imagens positivas, elevadas pela fantasmagoria da própria tragédia e das suas personagens.

Ao longo de uma hora e um quarto, a encenação suporta a misteriosa ação que é apanágio da obra, revelando o cansaço de um homem fraco, fustigado pelos desejos de poder e tirania da sua mulher, Lady Macbeth, aquela que concretiza as profecias das feiticeiras “irmãs do Destino”. Vestido de vermelho – antes e depois de ser coroado rei, como um prenúncio de sangue, crime e dor-, Macbeth corporiza a tragédia do poder, da intriga, da morte, da expeação e da loucura, numa atmosferafantasmagórica que é colocada em relevo pela projeção em vídeo da face aterrorizada do protagonista e pela ambiência sonora, da autoria de Roberto Neulichedl. Um terror que, a partir do IV ato, se revela na aparição do fantasma de Banquo, assassinado por um atormentado Macbeth, na vertiginosa loucura de Lady Macbeth e no combate final, em “slow-motion”, entre Macduff e Macbeth, no qual é morto o segundo – “Diante do meu corpo lanço o meu escudo de guerra. Anda, Macduff, e danado seja o primeiro a gritar: basta”.

Maria José Oliveira
in “Público”, 14 de fevereiro 2001


Fórum Nortenho

(…)
O momento seguinte do meu périplo em torno do teatro, foi a ida ao incontronável Teatro de Marionetas do Porto que apresentou, no Balleteatro Auditório, um Macbeth tão procurado que foi necessário ao grupo de João Paulo Seara Cardoso prolongar por dois dias a sua apresentação! O belo espetáculo, com uma banda sonora musical, excecional, de Roberto Neulichedl, sintetizou, com muita felicidade, a história exemplar de Macbeth tal como Shakespeare no-la conta, através de uma linguagem inspirada no “bunraku”, atravessada por um conjunto de outras linguagens (cenografia, vídeo, sombras) que, por malas-artes, nos conduziam ao centro do teatro! Isto é: como, desta vez, os “bonecos” de Júlio Vanzeler, oriundos do universo da BD mais “hard”, nos “afastam”, emocionalmente, pela sua rigidez expressiva, a verdade é que as vozes ampliadas e os rostos descobertos dos manipuladores (Seara Cardoso, Marta Nunes – espantosa descoberta -, Edgard Fernandes e Sérgio Rolo) nos atraem, irresistivelmente, pela sua humana “expressividade”…
(…)

Eugénia Vasques
in “Expresso”, 10 de março de 2001


Macbeth em sangue

No mês de fevereiro, o Balleteatro Auditório esteve ao rubro com a mais recente produção do Teatro de Marionetas do Porto. Esta companhia apoderou-se, pela primeira vez, de um grande clássico da dramaturgia universal – “Macbeth”, de William Shakespeare – e, através da sua encenação (assinada, tal como a cenografia, por João Paulo Seara Cardoso), colocou em evidência a tensão dramática do texto. Com um tratamento aparentemente simples, mas minucioso, a fazer lembrar a arte japonesa e, por vezes, o teatro clássico, o trabalho centra-se, essencialmente, na narrativa da peça. Pra tal, a obra-prima do século Xvii foi manipulada de forma a deixar de lado o supérfluo, concentrando-se no objetivo primordial de contar uma história. O resultado foi uma obra teatral “suavizada”, com particular destaque para a transmissão das palavras: aqui destacam-se, claramente, Marta Nunes e João Paulo Seara Cardoso, que por vezes nos fazem abstrair do resultado das suas manipulações, e nos levam a centrar o olhar nas suas expressões e na forma como dizem o texto. Não foi, no entanto, descurada a ação que se pretendia impulsiva e, em propagação, na forma de avalanche, até ao final desta eterna tragédia de amor e de morte.

A Escócia gótica da ação, com as mortes – o sangue -, a convicção no sobrenatural, a alienação mental, a ânsia de poder e a queda da personagem nas mais profundas trevas, mostra-se como o cenário mais que perfeito para a companhia extravasar todas as suas tendências experimentalistas (apenas empregues na conceção e tratamento plástico dos movimentos, pois não as quiseram aplicar sobre o texto). Assim, edificaram um ambiente soturno, de grande contenção, mas onde os níveis de expectativa são muito elevados. Como acontece, por exemplo, no início da peça. Aqui, através de um processo sonoro exemplarmente criado (o tratamento do som revela-se essencial e interativo), gera-se um ambiente fantasmagórico, com as bruxas a realizarem os seus feitiços e a debitarem os seus presságios num covil, onde a demência e o terrível andam de mãos dadas. É este ambiente sobrenatural que se incumbe o aparecimento sucessivo das marionetas, muito semelhantes entre si e pouco expressivas (a fazer lembrar a tibieza dos desenhos de Enki Bilal, que questionam a desumanização atual e perspetivam um futuro). Assim emerge Macbeth, de olhos enormes e uniforme estilizado de cabedal vermelho (numa antevisão do sangue que irá brotar?), em mais uma referência ao futurismo de Bilal e aos seus anti-heróis. De assassínio em assassínio, até ao reinado de Macbeth e à sua posterior desgraça e morte inglória, o enredo é dominado pela loucura, fúria, amor, e sede de poder. Esta história é também uma tragédia da noite e do son(h)o e aqui se encontram alguns dos melhores aspetos da encenação e cenografia: a penumbra, o onírico e o ritual dos movimentos das marionetas (especialmente nas batalhas corpo a corpo); que ajudam os espectadores a mergulhar no desejo veemente de glórias, na tormenta e na fatalidade que envolvem Macbeth e companhia. A intriga evolui, muito enérgica e em crescente até à morte inglória de Macbeth, sempre sob o “olhar” de um grupo de marionetas que estão guardadas (em cena, à volta do palco), prontas e desejosas de intrevir individualmente ou como um coletivo (os exécitos). É este “olhar” de impotência das marionetas, em conjunto com os estilhaços de vidros e imagens de vídeo, que mais perturba e estupefacta. E que nos deixa a repercutir sobre o humanismo do indivíduo e do coletivo.

Nuno Pontes
in “A Ponte”, abril de 2001

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