CONTOS D´ALDEIA

Desde sempre o Homem sentiu a necessidade de representar anímica e simbolicamente o mundo. Ao contrário do mundo ocidental, nas civilizações do sudoeste asiático, onde durante um maior período de tempo o culto das divindades se manteve associado à existência do Homem e à sua relação com os fenómenos naturais, o Teatro assumiu um carácter profundamente sagrado. A representação é, assim, uma oferenda do Homem ao sobrenatural a troco de proteção divina para a sua existência na terra. Dentro deste espírito, a filosofia do teatro oriental nega a representação «realista» justificando o aparecimento de formas teatrais em que o ator se assume despersonalizado – pela utilização de códigos gestuais ou pelo recurso à representação indireta, ao objeto intermediário – as máscaras, as sombras, os fantoches.

Passados que são, milénios sobre o nascimento do teatro de figuras animadas, nomeadamente as sombras, estas parecem-me constituir um género teatral de urgente atualidade. Talvez uma das vias para que o Teatro encontre de novo a sua linguagem própria, a sua mágica, a sua essência espiritual, distanciando-se definitivamente das linguagens audiovisuais que sobrecarregam a nossa existência. Curiosamente, a principal característica do Teatro de Sombras – a imaterialidade da imagem que se interpõe na relação ator/público – faz com que nele encontremos a forma teatral mais próxima da linguagem cinematográfica. Mas, mesmo aqui, o Teatro impõe-se e distancia-se como ato coletivo e presente que unifica o Homem no tempo e no espaço.

Na conceção deste espetáculo, recorreu-se frequentemente à recriação de elementos da cultura portuguesa que se sentem impregnados de teatralidade: do conto popular aos rituais exorcistas dos mascarados do nordeste transmontano e à nostalgia festiva do tamborileiro. Do ponto de vista técnico, as sombras e dispositivo cénico inspiram-se no ancestral Teatro de Sombras chinês. As figuras outrora fabricadas com a pele de animais sagrados, são agora de material plástico, os enormes toros de bambu são substituídos pela madeira de pinheiro.

Ainda hoje, reviver o Teatro de Sombras é desvendar os segredos ancestrais do dia e da noite, da luz e da sombra, da natureza humana perpetuada na alegoria platónica. A lua, é a eterna companheira de viagem para o reino do sonho, do irreal, sem limite no tempo e no espaço.

João Paulo Seara Cardoso

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conceção e encenação
João Paulo Seara Cardoso

cenografia e sombras
Rosa Ramos

texto
Luísa da Costa (dramatização de três contos tradicionais portugueses recolhidos por Teófilo Braga: Os dez anõezinhos da Tia Verde Água, Frei João Sem Cuidados, e o Mata Sete)

assistente de encenação
Luísa Guerra Leal

atores
Ana Queiroz, João Paulo Seara Cardoso

músico
Carlos Magalhães

Bonecos Bailarinos

Os Bonecos Bailarinos são uma criação da arte pastoril alentejana, concretamente da região de Estremoz, e crê-se que a sua existência remonta há já vários séculos atrás. Joaquim Rolo, artesão da freguesia da Glória, concelho de Estremoz, que fabricou o exemplar que apresentamos, recorda-se de os ver colocados sobre as lareiras das casas que visitava na companhia da avó, sacristã da freguesia, que duas vezes por ano recolhia dos habitantes uma contribuição para o seu trabalho, como era costume. Daqui se pode depreender uma primeira função decorativa dos bonecos. Mas não só; sabe-se também que, o facto de serem expostos ao fumo e ao calor da lareira, se destinava a secar a madeira, aumentando a sua sonoridade. Outro lado curioso, que nos foi relatado por várias pessoas, atribui ao boneco bailarino funções simbólicas associadas às tradições locais do casamento: era costume que a noiva bordasse uma bela toalha de linho para o noivo utilizar na manhã seguinte à boda; a toalha era era colocada em volta do boneco que, para o efeito, se dependurava na parede, junto ao lavatório. Mas não há dúvida de que a finalidade mais importante dos bonecos bailarinos era a distração e entretenimento das gentes que se juntavam no adro ou dos homens que se encontravam no fim do dia nas tabernas. Uma função lúdica. Traziam de casa os seus bonecos e, ao som da guitarra, do harmónio ou da flauta, faziam-nos dançar virtuosamente à disputa com outros para que se escolhesse o melhor dançarino. Os bonecos produzem um som aproximado ao das castanholas ou castanhetas quando executam o batimento dos pés sobre a tábua e não será difícil imaginar o notável efeito de desdobramento rítmico no acompanhamento ao instrumento melódico, de vários bonecos dançando simultaneamente. No que se refere à «dança», ela parece invocar o sapateado e, na realidade, a música mais usada no acompanhamento era o fandango do Alto Alentejo – daí os bonecos também serem conhecidos usualmente por «Bailadores de Fandango». Um maior virtuosismo e mesmo fórmulas tecnicamente mais apuradas terão sido desenvolvidas posteriormente, quando os bonecos começaram a ser exibidos nas feiras alentejanas; conhece-se, nomeadamente, um exemplar duplo, em que dois bonecos colocados frente a frente (situação típica da coreografia do fandango), executam a dança ligados por um só eixo.


Caretos e Chocalheiros


A grande força deste espetáculo consiste no facto de conter um texto de grande qualidade teatral e mesmo literária, o que não é vulgar nas marionetas. O texto de António José da Silva foi ainda valorizado pelo trabalho de encenação e de interpretação. João Paulo conseguiu articular a tradição da marioneta com a sua modernização. O resultado é um espanto. Num pequeno e belo teatrinho os manipuladores surgem visíveis da cinta para cima: há um trabalho de atores-cantores tão visível e excelente como o da manipulação. Os bonecos, os figurinos e as numerosas cortinas de fundo são de uma admirável qualidade plástica, duma beleza excecional; existe uma articulação perfeita entre o trabalho dos manipuladores e o músico que toca num instrumento moderno disfarçado de música de cravo, além de outros instrumentos. Este trabalho magnífico torna-se num grande momento de teatro quando no discurso final de Esopo e quando este luta com o príncipe líbio, cena em que o manipulador sai do seu lugar e surge no pequeno palco, como se fosse o próprio boneco.

Espetáculo de uma criatividade constante, utilizando registos de paródia sempre excitantes sem que deixe de ser um grande rigor, esta “Vida de Esopo” sem dúvida uma obra-prima.

Benjamim Enes Pereira
in “Máscaras Portuguesas”


O Tamborileiro

O tamboril e flauta, tocados por uma só pessoa, num conjunto instrumental unitário e coerente é, em Portugal, uma forma rara que existe apenas em duas regiões delimitadas e afastadas uma da outra: em algumas aldeias raianas de Terras de Miranda, no Leste transmontano, como elemento instrumental fundamental das festas em que têm lugar – danças de Pauliteiros, dos Velhos, Festas de Rapazes, Presépios de Natal, ofícios e solenidades religiosas – a par ou em lugar da gaita de foles, em funções de nítido carácter cerimonial e até litúrgico, e também em funções profanas e lúdicas, fiadeiros e outras diversões avulsas e acontecimentos de menor vulto, ao serviço da velha música característica dessa zona; e na faixa alentejana além Guadiana, associado às festas religiosas, apenas em funções cerimoniais qualificadas, servindo uma certa fórmula musical puramente ritual, que nada tem que ver com a música corrente da região.

O tamborileiro mirandês figurava com funções cerimoniais em festas religiosas, peditórios e procissões, casamentos e outras celebrações, onde o seu «rugir» secundava o toque dos gaiteiros; e, como estes, relacionava-se fundamentalmente com a dança dos Pauliteiros. A ela competia dar as alvoradas, acompanhando os Pauliteiros no peditório e na procissão e tocando nos ofícios dentro da igreja, ao «beijar do menino», no presépio, no Natal.

O tamborileiro alentejano, tal como o seu congénere mirandês, aparece em cada aldeia associado à festa local, com acentuado carácter cerimonial, ritual e social; ele sai apenas nessa altura a acompanhar o grupo que, em dia anterior, faz o peditório para a celebração e depois na festa, à frente, ao lado do guião, a seguir ao crucifixo, integrado na procissão. O tamborileiro alentejano é o elemento permanente da festa, no meio da sucessão dos festeiros, ele conhece todos os costumes e ritual e faz um pouco as vezes de um mestre de cerimónias que os festeiros consultam para saberem como conduzir-se.

Ernesto Veiga de Oliveira in «Instrumentos Musicais Populares Portugueses

in Instrumentos Musicais Populares Portugueses”


Só até domingo: “Contos d’Aldeia

Um belo espétáculo do teatro amador de intervenção

Deixe para outro dia o filme que tencionava ir ver, que ainda o terá para a semana. Deixe a chuva cair na areia, que daqui por três dias ainda está tudo na mesma. Não enfie as pantufas depois do jantar nem se sente na poltrona da saleta, que tem tempo para acabar o livro que anda a ler. Não convide os amigos para uma jogatina, que o jogo é um vício, dizia a minha avó. Vá quanto antes à salinha do FAOJ, na Rua de Rodrigues Lobo, 98 (a placa com o nome da rua está toda enferrujada, mas é aquela travessa da Rua de Júlio Dinis, ao lado direito quem desce, que tem à esquina um prédio de andares em adiantada construção), vá ali ver, que não se arrepende, o espetáculo que lhe oferece o TAI (Teatro Amador de Intervenção), às 21,45 horas. Por pouco dinheiro e por pouco tempo. A peça (3 histórias da nossa tradição popular) tem por título «Contos d? Aldeia»; os intérpretes são marionetas; a cena é um «écran» sobre o qual os títeres coloridos aparecem por transparência. Garanto que ainda não viram, aqui no Porto, um espetáculo assim. Dura uma hora e é um primor de graça e de engenho. A conceção e encenação é de João Paulo Seara Cardoso; a cenografia e sombras, de Rosa Ramos; a música, de Carlos Magalhães, e o texto, de Luísa Dacosta (dramatização dos contos populares recolhidos por Teófilo Braga: «Os dez anõezinhos da Tia Verde Água», «O mata sete» e «Frei João sem cuidado»). Do programa recorto estas palavras de João Paulo Cardoso: «Desde sempre o Homem sentiu a necessidade de representar anímica e simbolicamente o Mundo. Ao contrário do mundo ocidental, nas civilizações do Sudoeste Asiático, onde durante um maior período de tempo o culto das divindades se manteve associado à existência do Homem e à sua relação com os fenómenos naturais, o Teatro assumiu um carácter profundamente sagrado. A representação é, assim, uma oferenda do homem ao sobrenatural a troco de proteção divina para a sua existência na Terra. Dentro deste espírito, a filosofia do teatro oriental nega a representação «realista», justificando o aparecimento de formas teatrais em que o ator se assume despersonalizado ? pela utilização de códigos gestuais ou pelo recurso à apresentação indireta, ao objeto intermediário ? as máscaras, as sombras, os fantoches». «Na conceção deste espetáculo, recorreu-se frequentemente à recriação de elementos da cultura portuguesa que se sentem impregnados de teatralidades: do conto popular aos rituais exorcistas dos mascarados do Nordeste Transmontano e à nostalgia festiva do tamborileiro. Do ponto de vista técnico, as sombras e dispositivo cénico inspiram-se no ancestral Teatro de Sombras chinês. As figuras outrora fabricadas com a pele de animais sagrados são agora de material plástico, os enormes toros de bambu são substituídos pela madeira de pinheiro». Esta peçazinha representa-se só até domingo, que os títeres vão de abalada. À fé de quem sou que vale bem a pena ir ver, que se diverte& e recebe uma lufadazinha de ar fresco e renovado. O espetáculo tem um certo parentesco (pelo menos aparente) com o cinema de animação. E os títeres são manipulados com muita graciosidade e engenho, com vozes de Ana Queirós e João Paulo. Palmas também para Carlos Magalhães, o músico dos sete (ou mais) instrumentos.

Alves Costa
in “Jornal de Notícias”


Sombras de Luz

O TAI – Teatro Amador de Intervenção continua um trabalho de procura e experimentação que é um mergulho nas nossas raízes culturais, sem descurar o nosso quotidiano.

Com «Contos d’Aldeia», teatro de sombras, somos transportados para uma ambiência de pura magia e ao mesmo tempo de incrível realidade. Como se o inexplicável não fosse nada menos que outro olhar sobre o visível. A princípio a vaga luz que contra-ilumina os atores e máscaras ao jeito de Trás-os-Montes; um som, vozes, movimentos. O ritual de preparação. E as sombras tornam-se de pura luz.

A partir de três contos populares reescritos em forma dramática por Luísa Dacosta e com bonecos translúcidos construídos pelas sensíveis e subtis mãos de Rosa Ramos, é dado aos nossos olhos ver através; ao nosso espírito prescrutar o que está para além do dito e do pensado. Somos iniciados na linguagem dos símbolos e ao mesmo tempo remetidos para o quotidiano teatral; a mão que pendura o cenário, as pernas dos bonecreiros que espreitam por baixo do pórtico de luz, o músico que prepara os instrumentos. Tudo como a dizer: isto é teatro, não se iludam. Jogando sempre com essa ambiguidade – luz/sombra, ator/personagem, teatro/vida, somos levados a refletir sobre a condição de espectadores ou participantes nesse teatro dos sentimentos e modelos mais profundos que os contos tradicionais transmitem. Ao acreditar profundamente nos contos, ao dá-los inteiros, sem nenhum preconceito, os do TAI fazem-nos aceitar a nossa maneira de ser mais arcaica e a nossa diferença quiçá mais sombria (ou luminosa?).

Com uma aparente simplicidade de meios – imagino bem as horas de discussão, os inumeráveis ensaios – criam 50 minutos de puro teatro e intenso prazer. Mais, conseguem comunicar com todo o público – crianças, jovens, adultos, anciãos, como que recuperando o teatro popular das feiras, mas recriando-o à sua maneira. O humor sempre presente, o lugar para o improviso, a transação com o imprevisto, as respostas na ponta da língua à reação das plateias, tudo isso filtrado pela poesia e espontaneidade.

Também a música é protagonista desta, na sua barraquinha de festa o tamborileiro surpreende-nos com sons arrancados às panelas, ao serrote e a instrumentos «de verdade» musicais. Mas a sua presença, apesar de ao lado, é integrada. Ora chama a atenção sobre si, ora ironiza a ação ou sublinha os sentimentos, criando atmosferas prenhes de sugestões. Pois, falando em sugestão, aí reside a meu ver uma das maiores qualidades do trabalho, permitir-nos, através do sugerido, o dom de imaginar também, de criar por dentro, de visitar zonas insuspeitadas de nós próprios. Esse respeito pela inteligência sensorial do público é já uma marca do TAI. E o prazer é nosso, de quem propõe e de quem aceita. Aquilo que nos é dado ver e aquilo que revemos pela cor dos nossos olhos castanhos ou pretos ou…

Alves Costa
in “Jornal de Notícias”

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