CABARET MOLOTOV

O circo e as marionetas aproximam-se na poética do voo, as marionetas sem se sujeitarem às leis da gravidade, os artistas de circo desafiando-a. Uma vida aérea intermitente une a marioneta e o trapezista.
Cabaret Molotov é um espetáculo que resulta de um trabalho de experimentação em que tentamos levar o nosso modo de fazer teatro ao encontro de uma certa poética associada ao circo.
Também está presente nesta criação uma aproximação ao teatro musical com marionetas, que teve grande expressão na Europa nos meados do século passado.
É pois um cabaret melancólico que se inspira nas nossas memórias, mas iluminado pela nossa visão contemporânea do teatro e do mundo.
Em Cabaret Molotov, deambulam coristas apaixonadas, trapezistas, clowns absurdos, músicos de sete instrumentos, homens-coelho, homens-bala, ursos ciclistas, caniches cantores, dançarinos e bailarinas que dançam ao som de valsas, tangos, polkas, tarantelas e velhas canções de Kurt Weil.
Terá o Cabaret Molotov existido, ou tudo não passará de um lugar inventado por Vladimir, o Russo, para cenário do seu amor à trapezista Matrioska?

  • Cabaret Molotov
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Cabaret Molotov
encenação e cenografia
João Paulo Seara Cardoso

marionetas
Erika Takeda

figurinos
Pedro Ribeiro

coordenação coreográfica
Isabel Barros

música
Gotan Project, Eric Satie, Kurt Weil, Robert Miny, Yann Tirsen

desenho de luz
António Real e Rui Pedro Rodrigues

produção
Sofia Carvalho

interpretação
Edgard Fernandes, Rui Queiroz de Matos, Sara Henriques, Shirley Resende (instrumentista)

operação de luz e som
Rui Pedro Rodrigues

assistente de encenação
Pedro Ribeiro

assistente de produção
Pedro Miguel Castro

técnicos de construção
Inês Coutinho, Filipe Garcia, Pedro Pereira

pintura de marionetas
Inês Coutinho

construção de estruturas
Américo Castanheira, Tudo-Faço

confeção de figurinos
Cláudia Ribeiro – coordenação técnica
Celeste Marinho – mestra-costureira
La Salete Oliveira, Maria Glória Sousa Costa, Esperança Sousa, Ana Maria Fernandes, Rosa Pinto, Alice Assal – costureiras
Catarina Barros – aderecista
Patrícia Mota, Joana Caetano – assistentes

penteados e maquilhagem
Lea-b, cabeleireiros

prof.ª danças de salão
Paula Basto

montagem de luz
Rui Maia

design gráfico
Daniel Marques

fotografia de cena
Paulo Barata

apoio
Orquestra Nacional do Porto

espaço cénico
boca de cena: 12m
profundidade: 15m
altura; 6,0m
– n.b.:é possível adaptar a cenografia a áreas um pouco menores

luz
Dimmers digitais – 96 circuitos – Prot. Com. DMX512
Mesa de luz ETC Express 24/48 ( Mat. da companhia )
Varas de luz ( ver planta em anexo )

estruturas
4 torres laterais com 4m de altura

projetores
31 Fresnel 1KW c/ palas e porta-filtros
14 Proj. Recorte 1Kw 25/50
6 Proj. Recorte 2Kw 25/50
4 Proj. Souce Four Par c/ palas e porta-filtros
4 Proj. Par 36( Mat. da companhia )
1 Mini Par c/ palas e Porta filtros( Mat. da companhia )
Filtros: ( Mat. da companhia )

som
Sistema de amplificação stereo com reforço central para voz
3 monitores colocados no palco
1 Mesa de mistura digital ( Mat. da companhia )
2 Microfone lapela
1 Microfone de mão emissor
1 Microfone Shure p/ voz
1 Clavinova c/ output stereo
1 Bateria ( Mat. da companhia )
1 Acordeão ( Mat. da companhia )

bastidores
4 camarins individuais ou 1 coletivo

montagem
10 horas

staff necessário
2 carregadores para carga e descarga
2 Técnicos de luz
Técnico de som
Técnico de palco

plano de trabalho

1º turno – 4 horas
Montagem:
Cenografia; Cena negra; Luz; Som

2º turno – 4 horas
Afinação: Cena negra; Luz; Som

3º turno – 4 horas
Ensaio Geral:
Luz; Som

notas: Para iniciar a montagem o palco e a teia devem estar limpos e sem quaisquer equipamentos.
É utilizado um pequeno explosivo.

duração do espetáculo: 75 minutos

classificação etária: maiores de 12 anos

menções obrigatórias em todo o material promocional do espetáculo:
Estrutura financiada por SEC/DGArtes (com inserção de logotipos).

Entrevista dirigida por Sónia Esteban para a revista Elegy

2007

Como entrou no mundo das marionetas?
Nem eu sei (risos). Um curso do teatro universitário do Porto deu-me a base de conhecimentos, que aprofundei com alguns cursos em França. Mais tarde integrei o Teatro Amador de Intervenção (TAI- grupo de teatro liderado por Mário Moutinho – atual diretor do Festival Internacional de Teatro FITEI), que desenvolvia uma importante atividade na cidade. Os espetáculos para a infância com marionetas começaram a ser um dos pontos fortes da produção do grupo e isso levou, em 1988, à criação do Teatro das Marionetas do Porto.

Como está a situação político-cultural da cidade do Porto?
Nunca se viveram tempos tão difíceis nesta cidade. Dum ponto de vista estritamente financeiro não nos afeta, já que não dependemos da Câmara e há 5 anos que não atuamos no Rivoli. Nunca mais enviamos uma proposta a esta sala desde o momento em que o Presidente da Câmara (Rui Rio) tornou clara a sua “política cultural” e começou a hostilizar ostensivamente os agentes culturais. Embora a situação não nos afete diretamente, está a ser desastrosa para a cidade. E é lamentável que eventos, instituições e festivais de grande importância e que prestam um grande serviço público não tenham o apoio a que têm direito por parte da autarquia.

Acha que esta situação vai mudar?
Não. Atingiu um estado que se pode considerar “bater no fundo”. Durante o mandato de Rui Rio não nos restam esperanças. A única que temos é se ganhar o PS (único partido da oposição com possibilidade de ganhar as eleições) daqui a 3 anos. Até lá esta cidade vai viver um pesadelo.

Os profissionais da área vão ter de emigrar?
Há uns anos atrás, comecei a sentir um enorme desencanto em relação a este “desmoronar” de uma certa utopia cultural que se tinha vivido no Porto até 2001, o que me levou até a criar um espetáculo em que exprimia esse sentimento. Um sentimento que talvez tenha levado pessoas a desistir dos seus projetos e a mudarem de cidade. Embora continue “desencantado” não sou pessoa de desistir e acho que a atitude certa é continuar a lutar, contra ventos e marés.

Fale-me do Cabaret Molotov.
Desde os anos 30 que as marionetas sempre se deram num espírito de Cabaret: misturavam-se marionetas com cantores, bailarinos, artistas de music-hall, etc. Houve um filme Post-Expressionista alemão sobre o Cabaret berlinense que me influenciou bastante. Também tenho visto belíssimos espetáculos de novo circo que me têm sensibilizado. São elementos de background que me motivaram a criar este espetáculo. Durante a produção, vimos e discutimos dois filmes importantes para a compreensão do ambiente de cabaret: “Moulin Rouge” e “Cabaret”.
O que me preocupava neste espetáculo era encontrar uma estrutura dramatúrgica que funcionasse como fio condutor para unir as diferentes partes, de forma a não ficarem apenas “números” soltos de cabaret.
O espetáculo divide-se em duas partes com duas estruturas diferentes: a primeira mais de Cabaret, expositiva, e a última mais teatral, em que o sentido do tempo, que é outro, e do lugar, que não é aquele, começam a tornar-se elementos, por assim dizer, inquietantes. No final entramos no universo pessoal dos intérpretes e compreendemos que o acabar do espetáculo é o começo de uma viagem.

Qual é a tua parte preferida e porquê?
Em termos técnicos de marionetas (falo no sentido da procura de coisas novas) é o número da bailarina. Só com o estofo técnico que temos é possível fazer aquilo com 3 pessoas e tão poucos meios: um bailado para cinco pauzinhos e uma bola. Por outro lado, agrada-me ter conseguido criar um universo paralelo de marionetas e atores e chegar ao final da peça com a sensação de um confronto violento do qual ninguém sai vencedor.
O que busco na nossa maneira de fazer teatro é esse confronto, essa dialética, esse jogo entre o ator que vive e a marioneta de vida intermitente que apenas tem existência cénica. É, de certo modo, uma metáfora da nossa vida, de nós próprios, da nossa existência efémera.

Do quê é que gostas menos?
Ainda não sei. Passou-se pouco tempo desde a sua estreia e ainda não tenho a distância suficiente. Geralmente acontece-me isso passado um ano. Agora está muito quente, embora sempre existam coisas que quero mudar, mas são mínimas e íntimas.

Como encontraram Shirley Resende (instrumentista)?
Uma das principais dúvidas que tinha na criação deste espetáculo era: que música deveríamos usar sem conotações primárias de Cabaret e de que forma. Falei com a Shirley, que colabora connosco há muitos anos como pianista, e lancei-lhe o desafio de ser mulher-orquestra. Decidimos que a música do espetáculo seria integralmente tocada ao vivo, sem recurso a gravações. E depois de muito trabalho a Shirley conseguiria tocar piano e acordeão, cantar e ainda tocar bateria com as mãos, os pés e sei lá que mais… Usamos musicas variadas: de Yann Tirsen a Eric Satie e a Gotan Project.
Um facto importante, para a construção do espetáculo e para a sua teatralidade foi o dia em que me apercebi de que ela poderia também ser um personagem da narrativa, e não estar só no seu palquinho a tocar. Ela contracena com o Vladimir, e, aos olhos do público, eles parecem ser os únicos que conhecem a verdadeira história daquele cabaret melancólico.

Os Intérpretes.
Este trio de intérpretes trabalha comigo há vários anos e como nos conhecemos bem o nosso processo de criação é muito partilhado. Têm todos formação teatral, embora a do Sérgio seja na área da cenografia. O nosso processo é quase formativo. Qualquer bom ator que entre num processo de trabalho connosco poderá dar um bom marionetista, já que se produz um efeito de osmose.

O Teatro de Marionetas tem qualquer vínculo com o Festival de Marionetas?
Não estamos vinculados ao Festival, mas temos uma relação muito próxima. Nos primeiros anos do Festival a Isabel (Isabel Alves Costa, diretora do Festival) e eu encontrávamo-nos muito em espetáculos pela Europa e trocávamos impressões e fazíamos análises do que víamos e das tendências do teatro de marionetas, o que veio a influenciar o conceito do Festival que ela criou.

Está agendada alguma tourné?
O próximo espetáculo será “Nada ou o Silêncio de Beckett” em Santiago de Compostela (Espanha), nos dias 19 e 20, na Sala Nasa. São bons amigos com quem já temos uma relação antiga. Em março estaremos com o mesmo espetáculo em Colónia, Alemanha.

Qual o tipo de público costuma ir aos vossos espetáculos?
O nosso público é essencialmente constituído por uma camada jovem, dos 20 aos 30 anos. Comecei a notá-lo, especialmente, nos “Três Porquinhos” (teatro Rivoli), um espetáculo de temática urbana e que considero muito contemporâneo. A nossa decisão de realizá-lo durante dias de semana à meia-noite foi arriscada, mas o certo é que esteve sempre com lotação esgotada.


Mostra internacional que começou na terça ao ar livre, sob o céu estrelado de Brasília, vai apresentar quase 30 espetáculos


Na mesma noite de abertura, no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, o grupo portu­guês Teatro de Marionetes do Porto apresentou Cabaret Molotov. No palco, o grupo reproduz com bonecos os números dos espetáculos de variedades e recria a atmosfera típica do comporta­mento de artistas populares: um certo tom de decadência, marca externa e mais visível de, uma gente boêmia, cuja nature za não combina com submissão às regras rígidas exigidas para fazer sucesso no showbusiness. Os melhores momentos desse espetáculo, dirigido por João Paulo Seara Cardoso, estão na reinvenção que os atores fazem de números clássicos ao tirar proveito das possibilidades das marionetes. Por exemplo, só uma boneca cuja cabeça é uma cabaça, o tronco um graveto e os membros simples varetas manipuladas pelos atores, Edgard Fernandes, Sara Henriques e Sérgio Rolo, pode se dar ao luxo de fazer coreografia com a cabeça sendo literalmente jogada dè lá para cá. Claro que só funciona porque o grupo consegue, mais do que simplesmente ‘manipular’, criar uma poética feita de dança numa hora, malabarismo e competição em outra.

Beth Néspoli
in “O Estado S. Paulo”, 29 de agosto de 2008


Entre angústias e diversões


Dono de pesquisa que o transformou em referência no género dos bonecos, o Teatro de Marionetes do Porto faz de Cabaret Molotov um pot-pourri de técnicas e pesquisa de lingua­gens. É tão impressionante a va­riedade de bonecos quanto são as técnicas de manipulação que exigem dos atores mais do que habilidade manual. Em cena, eles cantam, dançam e pas­seiam do clown ao grotesco, nu­ma montagem ambientada em autêntico clima de cabaré, com direito a canções brechtianas executadas ao vivo pela múlti­pla e talentosa Shirley Resende. Humor e precisão levam a plateia ao suspiro dramático tão necessário ao circo-teatro. Dis­posto em dramaturgia circular e sem conexão, Cabaret molotov ganha potência no cuidado in­terno com o desenvolvimento de cada número, apesar de fal­tar costura narrativa entre os quadros. Um dos mais simples e poéticos, “o da vaquinha que faz mu”, acompanha o espectador para além do teatro.

Sérgio Maggio
in “Correio Braziliense”, 29 de agosto de 2008


Poesía, circo y cabaret

Aveces resulta perentorio no dejarse deslum­brar por los grandes tas­cos y ei atronador sonido de las fanfarrias, y dirigir nuestra atención hacia las pequenas cosas. Solo así, pensando que existe vi­da más allá de los grandes y suntuosos espectáculos, podremos tener la fortuna de encontrarnos, de vez en cuando, con al-gún pequeno tesoro.

Esto es lo que sucede con la compañia portuguesa Teatro De Marionetas Do Porto, que estos dias presenta en el Teatro del Mercado su espectáculo “Caba­ret Molotov”, a cuyo juego el pú­blico tardo en entrar, pêro que, al final, terminó entregándose por completo.

A lo largo de sus veinte años de existencia, Teatro De Mario­netas do Porto ha traba jado en una doble vertiente. De un lado, Ia recuperación de antiguas for­mas tradicionales de teatro de títeres. Del otro, la búsqueda de la contemporaneidad del teatro de marionetas, experimentando nuevas formas de manipulación y caminos de cncuentro con otras disciplinas artísticas, como el circo, la danza o la música.

“Cabaret Molotov” convierte en realidad escénica esa filoso­fia, para recrear un universo poético, melancólico en ocasio­nes, por el que desfilan coristas, bailarinas, osos ciclistas, clowns, acróbatas, y que sirve de escenario para el amor de Vladimir por la trapecísta Matrioska. La puesta en escena, partiendo del tradi­cional teatro musical con mario­netas, acomoda la representación sobre un excelente ritmo, cuida la belleza visual, mantiene viva la capacídad de sorprender, convierte el movimiento y las transiciones en un imaginativo ejercicio de precisión, y hace ga­la de un rico y original repertó­rio de recursos teatrales y de técnicas de manipulación.

Un subresaliente trabajo actoral y de manipulación, con una gran carga de corporalidad y exigencia física, hace palpable y visible el inteligente juego de planos que plantea la puesta en escena. De un circo en miniatu­ra pasamos a otro, éste en tamaño real. Observamos la integración orgánica entre el actor y el títere, la fusión de la actriz con el muñeco en un solo elemento o cómo la actriz misma se con­vierte en marioneta.

“Cabaret Molotov” es uno de esos espectáculos que no debería perderse todo aquél que piense que el arte sólo puede florecer con el movimiento, en la búsqueda respetuosa y riguro­sa de nuevas formas de expresión, en el riesgo, en eí mestizaje de disciplinas y lenguajes artísti­cos, y en la llamada a Ia emoción y Ias sensaciones desde la cerca­nía y el calor humano? Y qué es todo esto, sino Teatro?

Joaquín Melguizo
in “Heraldo de Aragon”, 22 junho de 2008


Ciudad Rodrigo se hace mayor


Finalmente. Las Marionetas de Oporto consiguieron con “Cabaret Molotov’ arrancar una de Ias mayores ovaciones de Ia feria, al tiempo que nos mostraban el trabajo de más bella factura y sentido dramático.

in “La Teatral”, outubro – dezembro 2007


Camarrrada Público


Teatro de Marionetas de Porto presentó un grandísimo espectáculo: el antes mencionado Cabaret Molotov, en donde se conjugan varias bondades: Ia sencillez, Ia imaginación, el talento. Ia calidad interpretativa, el gusto, Ias buenas ideas, el humor ingenuo o el bululú borde.

Munecos, objetos, actores, bailarines, músicos, todo en pleno funcionamiento para contar Ia historia de un viejo cabaret en donde el presentador, primero un títere, después un actor, va renegando en ruso del vodka y va enseñando sus artistas, que van desgranado número a núme­ro sensibilidad, belleza, humor y emociones, logrando, un buenísimo espectáculo para todos los públicos, todas Ias circunstancias, todos los espacios. Bueno en sus intenciones, excelente en su estética, magnífico en su capacidad comunicativa, inteli­gente en sus planteamientos, sensible en sus músicas. Un espectáculo total, de los “camarrradas artistas” portugueses. Nos duelen todavia Ias manos de aplaudir.

Carlos Gil Zamora
in “Artez”, setembro 2007


Um teatro poético e popular

Numa entrevista publicada no 4.° número da Sinais de cena, João Paulo Seara Cardoso partilhava uma das mais centrais premissas de muitos dos espetáculos do Teatro de Marionetas do Porto, a companhia que há largos anos dirige e que é um dos casos de maior felicidade criativa da nossa paisagem teatral contemporânea:

A nossa forma de fazer teatro assenta fundamentalmente na ideia de expor aos olhos do público a marioneta e o ator em relação íntima com os outros elementos cénicos, e explorar a dialética que daí advém. Neste contexto seria altamente restritivo usar só as marionetas, porque a marioneta não pode existir teatralmente sem o ator, elemento essencial da teatralidade. E o que é belo e ao mesmo tempo brutal nisto tudo é o confronto entre os atores e as marionetas: tanto um ator que manipula uma marioneta, como um ator que contracena com uma marioneta ou como os atores que vivem no mesmo universo, quase onírico, das marionetas. É todo este jogo, muito sedutor, toda esta dialética, de vida e de morte, de existência efémera, que pode provocar um estado especial em quem assiste a um espetáculo. (Cardoso 2005: 61-62).

Esta síntese exata, então esboçada para recuperar o conjunto de processos cénicos que vinham orientando o percurso daquela companhia, serve ainda para caracterizar um dos mais recentes e mais conseguidos espetáculos de João Paulo Seara Cardoso. Apresentado como o resultado de um continuo “trabalho de experimentação”, Cabaret Molotov leva um pouco mais longe o assumido investimento na manipulação à vista, isto é, na exploração performativa da indissociável articulação entre o intérprete e a marioneta ou, como o criador prefere, o “objeto cinético” – expressão mais justa, na realidade, para designar a multiplicidade de objetos animados pelos manipuladores, desde o boneco mais antropomórfico até à simples bola vermelha ou ao mais elementar bocado de madeira, sem qualquer expressão antes daquela que lhe emprestarão o corpo e a voz dos atores.

O criador cruza neste seu espetáculo a linguagem das marionetas com o imaginário e alguns dos recursos do circo, do cabaré e do music-hall, tirando o máximo partido da maleabilidade dessas formas populares de teatro. Historicamente anteriores à sistematização teórica e às experiências concretas de um “teatro popular” de ambições democráticas, proletárias e politicamente progressistas, estas tradições performativas tinham tradicionalmente o entretenimento como ambição dominante e caracterizavam-se por uma ostensiva despretensão artística e intelectual. Tal facto não impediu que tivessem servido, e continuem a servir, de estímulo para as pesquisas artísticas de alguns dos mais ousados criadores teatrais contemporâneos, que nelas vislumbraram um enorme potencial transgressivo e uma peculiar permeabilidade às mais variadas operações de adaptação, reinterpretação e reconfiguração cénica (cf. Schechter 2003).

Dado o manifesto interesse de João Paulo Seara Cardoso pelo cruzamento de disciplinas ou universos artísticos e pela exploração das suas mais imprevistas fertilizações, não deverá surpreender esta convocação do circo e do cabaré. A estratégia surge, apoiada numa forte presença musical, que se traduz na utilização de uma vasta panóplia de instrumentos, tais como o piano, a bateria ou o acordeão. Essa ampla dominância da música fica, aliás, claramente enunciada desde a entrada dos espectadores no espaço de representação, através da presentificação quase transparente de muitos dos recursos com que se realiza o espetáculo: os abundantes instrumentos musicais surgem concentrados sobre uma pequena plataforma, colocada à direita, na qual se instalará a instrumentista; ao centro, mais ao fundo, uma cortina vermelha ou pano de boca, apoiado numa estrutura metálica, sugere a possibilidade de multiplicação das áreas de jogo; de um lado e do outro do espaço de representação, diversos cabides e outros adereços completam a paisagem de um espetáculo cuja magia resultará da vida emprestada pelos intérpretes aos objetos e às marionetas inicialmente inertes.

Apoiando-se na lógica de funcionamento do espetáculo de variedades, comum tanto ao circo como ao cabaré, Cabaret Molotov organiza-se em quadros, que se sucedem quase sempre interligados através das mais variadas soluções de continuidade. Depois de uma espécie de prólogo circense, em que um homem-bala é disparado de um canhão contra as cortinas, o primeiro quadro surge dominado pela figura, imediatamente cativante, de Vladimir, uma marioneta de pesado sobretudo castanho, a que o seu principal manipulador empresta um reconhecível, mas globalmente incompreensível, linguarejar russo. Estabelecido o diálogo de Vladimir com a trapezista Matrioska, representada por uma mais pequena marioneta com os braços agarrados a um trapézio, assiste-se à enunciação daquela que será a principal marca deste espetáculo e que o seu encenador apresenta como uma “poética do voo”: liberto das leis da gravidade pela ação dos seus manipuladores, Vladimir facilmente descola do solo, entregando-se a uma liberdade de movimentos mais ilimitada do que a experimentada pela sua amada Matrioska. O mesmo, aliás, acontecerá com a generalidade dos mais variados “objetos cinéticos” convocados e manipulados durante todo o espetáculo, numa espécie de repetida coreografia aérea que reforça o delírio imaginativo em que aposta CabaretMolotov.

Vladimir regressará, mais tarde, embora desta vez seja a sua voz que se ouve primeiro, no escuro, chamando por Kristina – aparentemente o nome emprestado à intérprete musical de farto cabelo ruivo e saia de muitas camadas de tutu vermelho. Vladimir prolonga a sua ambição aérea, saltando agora numa cama elástica. Por mais de uma vez, cai, tosse, e sobre o solo, no meio do seu contínuo linguarejar, ouve-se algo que parece querer significar “maldita vodka”. Alguém haverá de o pendurar num cabide, facto que não o impedirá de continuar a falar, acompanhando a intérprete musical numa melancólica canção francesa. No final, caberá também a Vladimir – uma vez recuperado do seu cabide, mas agora duplicado na figura de corpo inteiro do seu manipulador, equipado com um megafone e um candelabro – encerrar o espetáculo. Numa eloquente figuração da já referida dialética entre a marioneta e o seu manipulador, este último Vladimir dará de beber ao primeiro, beijá-lo-á, para depois voltar a fazê-lo desaparecer de cena.

Entre estes três momentos, sucedem-se outros números, nos quais se misturam – como no circo, como no cabaré, mas também como num deliberado, embora não necessariamente explosivo, cocktail cénico – as mais diversas criaturas e processos de lhes dar vida: três cabeças de caniche, que não são mais do que marionetas de mão manipuladas pelos três intérpretes vestidos com fatos de palhaços ricos, interpretam Mack the knife, de Kurt Weill e Bertolt Brecht, ao som de diferentes latidos; três narizes redondos, ou três bolas vermelhas, são animados pelo mesmo conjunto de intérpretes, apostados agora num jogo virtuosístico de sincronização de movimentos e de variações sonoras; dois pequenos bonecos mais antropomórficos, manipulados por uma vara na cabeça, entregam-se a um bailado aéreo sobre uma comprida mesa saída de detrás da cortina; uma bailarina – quase magicamente criada em frente aos olhos dos espectadores, através da imprevista articulação de seis inexpressivos bocados de madeira – executa, sobre a mesma mesa, uma outra espécie de bailado, mais clássico, mas de incomparável elasticidade, desatenta ao perigo constituído pelas chamas de um candelabro colocado na proximidade da sua área de atuação; três pares de sapatos, ainda sobre a mesma mesa, manipulados por intérpretes de marcados chapéus na cabeça, interpretam um breve episódio de ciúme e desafio, ao som de um tango dos Gotan Project; um mais delirante homem-coelho reclama, num linguarejar italiano mais reconhecível que o russo de Vladimir, um beijo da mulher-coelha que retira da sua mala branca; três marionetas de corpo inteiro executam uma frenética valsa de salão, servida pelos movimentos rápidos, circulares e aéreos dos seus pares humanos; dois palhaços ricos entregam-se às mais cruéis e divertidas tropelias; uma rapariga de meias, ligas brancas e tiras de cor vermelha é manipulada, qual marioneta, por outro dos intérpretes. Mas ainda há o número executado pela atriz que traz consigo, como se fosse uma extensão do seu corpo, um pequeno teatrinho, de cujo palco vão desaparecendo uma casa e o seu habitante, um cão e uma vaca, à medida que um avião vai largando bombas sobre aquele minúsculo cenário; animado por um exigente jogo de manipulação e sonorização, este quadro introduz no espetáculo uma nota de mais tópica e perturbadora atualidade.

Cabaret Molotov é uma fascinante proposta cénica, dominada por jogos de alternância de escalas entre os intérpretes e os objetos e servida por demonstrações aparentemente inesgotáveis de humor e de imaginação. A extrema coerência do espetáculo só parece vacilar quando a opção figurativa cede a uma forma mais literal de poesia ou a uma espécie de inesperado mimetismo, uma alternativa aparentemente inaceitável neste universo onírico – como acontece num dos números finais, quando, depois de lhe terem despejado uma garrafa de champanhe sobre o corpo, uma mulher de lingerie preta recita um poema em espanhol. Se, como no circo ou nas variedades, a sequência de cada um destes números nem sempre é servida por uma mais elaborada lógica de motivação, tal fragilidade dramatúrgica é largamente compensada pelo imparável carrossel de figuras, pela hábil alternância de protagonismo entre a marioneta e os seus manipuladores e, sobretudo, pela contagiante invenção que acompanha a arrebatadora e encantatória execução de todos esses quadros. Edgard Fernandes, Sara Henriques e Sérgio Rolo demonstram ser, simultaneamente, atores, bailarinos, cantores e manipuladores, revelando uma versatilidade e uma energia interpretativas só possíveis pela consequência do trabalho desenvolvido no âmbito de uma tão coerente estética cénica. A instrumentista Shirley Resende completa o quarteto de magníficos intérpretes de um espetáculo que recupera fórmulas e convenções de comprovado apelo comunicativo para as injetar com um renovado fôlego poético e imaginativo.

Paulo Eduardo Carvalho
in “Sinais de Cena”, nº7, junho de 2007


O circo de pulgas e o cabaré sublime

Se pensava que ao entrar num cabaré de apelido Molotov ia poder fumar à vontade e beber álcool, desengane-se. Não se encontrou tabaco nem cocktails fumegantes, nem pessoas a bailar por entre as mesas, no intervalo das canções e dos números de variedades deste Cabaret Molotov. Obviamente, o propósito do Teatro de Marionetas do Porto é mais do que entreter a plateia. Instalado no Convento de São Bento da Vitória está um cabaré, sim, mas no palco, para ser visto com toda a atenção. Na verdade, mais do que um cabaré fictício, o espetáculo é um cocktail cénico que tem de tudo um pouco: marionetas, dança, teatro, circo, music-hall, juntos numa reunião familiar em que os parentes próximos e afastados viessem das mais longínquas pátrias e tradições das artes cénicas, apresentando os seus números e falando versões macarrónicas de russo, italiano, alemão e espanhol, numa profusão de atos e línguas de palhaço. Há coristas, trapezistas, acrobatas, homens-bala e funâmbulos, ursos e coelhinhas. Esta grande família de artistas é criada por atores e marionetas alternadamente, num circo em miniatura que muda para a escala real sempre que o olhar do espectador é focado nos manipuladores, e regressa a um mundo de sugestão, povoado de profissionais do espetáculo, causado pela manipulação dos objetos. Todos se encontram num lugar de lembrança popular: a área de jogo encimada pelo pano de boca que evoca tanto a arena de circo como os tablados mais escusos. De repente, é como se este fosse o espetáculo ideal para encerrar mais um ano de teatro no Porto, fazendo uma revista sublime de todos os encantamentos teatrais da cidade. Os manipuladores expõem os truques todos, como se na apresentação de um circo de pulgas o amestrador avisasse previamente que não existe pulga alguma, e ao espectador coubesse ver o invisível e fazer vista grossa ao que entra pelos olhos dentro. O público desfia em conjunto com os atores o rol de memórias de atrações de cena que, por magia, ganham corpo. Número após número, a manipulação à vista dos objetos inanimados mostra a relação íntima mantida pelos marionetistas, atores e personagens, com os bonecos e máscaras que se escolhem para efígies e totens.

As marionetas somos nós, parece, manietados pela projeção das figuras que nos calham. As referências escondidas ao cinema e as piscadelas de olho ao público mais cúmplice coabitam com o humor físico e farsesco. A expressão dos universos dos criadores e intérpretes parece ressoar e repercutir no imaginário do espectador. O especáculo é tanto sobre o circo e o cabaret, e sobre essas memórias, como sobre o romance de Vladimir e Matrioska, como sobre o próprio ato da manipulação, numa síntese bem feita entre arte e entretimento. Manipulando ícones do nosso imaginário, o Cabaret Molotov reproduz e materializa os sonhos pessoais dos autores, partilhando-os com o espectador mais ou menos anónimo. Nos claustros de um velho convento, convertido em sala de concerto, a memória do teatro encerra com um último olhar sobre o espetáculo da decadência de fim de noite no cabaré; e a manipulação dos objetos, representando continuamente a ilusão da arte e o fracasso do quotidiano, parece perguntar, mesmo quando nos rimos: o que fiz do meu sonho?

Jorge Louraço Figueira
in “Público”, 23 de dezembro 2006


Vladimir ama Matrioska no cabaré do Teatro de Marionetas do Porto

Os caniches cantam Mack the Knife no original alemão de Brecht e Weill, os sapatos de salto alto dan­çam um tango dos Gotan Project, o coelho guarda a noiva na mala e ele, Vladimir Molotov, bebe vodka, por ele e por Matrioska. Poderia ser tudo cintilante e maravilhoso no Cabaret Molotov que o Teatro de Marionetas do Porto monta, a partir desta noite, no Convento de S. Bento da Vitória. Mas Vladimir ama Matrioska, a trapezista, e ela já não é deste mundo – porque este mundo, o mundo dos grandes circos soviéticos e dos míticos cabarés berlinenses, também não.

Apesar de replicar a estrutura de um espetáculo de circo, na sua divi­são em números, há vida em Cabaret Molotov para além das variedades que os atores Edgard Fernandes , Sara Henriques e Sérgio Rolo e a instrumentista Shirley Resende executam nos claustros do conven­to. …

Inês Nadais
in “Público”, 7 dezembro 2006


E se o convento se transformasse num cabaret?

O aviso no início do es­pectáculo é bem explí­cito: “Tapem os ouvi­dos!”. Todavia, quem in­sistir em contrariar o apelo dará por si num inebriante cabaret onde os sentidos podem vaguear ao ritmo do tango. O segredo é não fa­zer a mente acompanhar com nexo a ritmada sucessão de números -e são muitos -, mas sim degustar os seus efeitos. Tudo acontece em “Cabaret Molotov”, …

“Cabaret Molotov” chegará a surpreender o público com o seu encontro entre formas de expres­são pouco convencionais, “ape­nas com alguns elementos que fossem reconhecidos como o ita­liano e o russo”.

Depois, há todo um excelente trabalho em que os atores – Edgard Fernandes, Sara Henriques. e Sérgio Rolo – intercalam a in­terpretação com a manipulação de marionetas….

“Cabaret Molotov” torna-se ainda num espetáculo maior por ser acompanhado pela ins­trumentista Shirley Resende , que vagueia por Gotan Project, Ene Satie, Robert Miny e Yann Tiersen.

O resto, o que não é percetível à vista desarmada, deve ficar a de­ver-se à mística do espaço “gran­de e espiritual”. …

Marta Neves
in “Jornal de Notícias”, 7 dezembro 2006


As marionetas também vão ao circo

…E a época na­talícia acaba por adequar-se a um espetáculo que tem poten­cial para agradar a um público dos oito aos 80 anos e que, ao mesmo tempo, representa uma visão alternativa do circo.

Cabaret Molotov organiza–se numa sequência de polaroides que se vão sobrepondo como números de circo, alter­nando entre ambiências circenses e de cabaré…

Para lá da força da expressividade das marionetas e dos atores, a quase ausência de linguagem verbal é uma das grandes apostas da peça, tornando-a acessível a pú­blicos diversificados.

João Pedro Barros,
in “Sol”, 8 dezembro 2006


Cabaré Seara Cardoso

É uma visita ao imaginário dos cabarés berlinenses dos anos 30 e dos grandes circos soviéticos, mas é sobretudo uma visita ao imaginário de João Paulo Seara Cardo­so, o diretor do Teatro de Marionetas do Porto (TMP). Cabaret Molotov, a nova pro­dução da companhia, é uma mistura assim explosiva: um cruzamento entre coisas que nunca se tinham cruzado no historial do TMP mas que se atravessam há décadas na cabeça de Seara Cardoso.

Inês Nadais
in “Público”, 12 dezembro 2006


Das trincheiras ao cabaret

Na 7a edição do FIMFA Lx – Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas, a Tarumba – Teatro de Marionetas convida o público a descobrir a marioneta do futuro com 15 companhias profissionais provenientes da Holanda, Dinamarca, França, Brasil, Rússia, Espanha, Reino Unido e Portugal. Sendo privilegiada a transversalidade artística, destacam-se os projetos experimentais que fundem as marionetas e o circo, a dança, a música contemporânea, as artes plásticas e as novas tecnologias.

Na sala do Teatro Maria Matos, a companhia holandesa Hotel Modern abre o festival com The Great War, um espetáculo impressionante que transporta o espectador para as trincheiras da I Guerra Mundial. Quatro performers concentram uma atividade frenética em redor de um décor de cinema em miniatura, produzindo sons, manipulando soldados e artilharia, filmando e, alternadamente, lendo excertos de cartas de um soldado francês, Prosper, urn desconhecido que viveu, talvez os seus últimos dias, rodeado de chamas e cadáveres.

Descrito como “filme de animação em direto”, o espetáculo desenvolve-se entre a violência das imagens projetadas num enorme ecrã e a simplicidade naïve dos objetos manipulados. Situado entre as duas dimensões, o espectador assiste à transformação dos tanques de brincar em máquinas de guerra, vê um bico de gás a destruir uma cidade ou duas botas manipuladas por dedos que mostram o caminhar penoso do soldado enterrado em lama, solidão e medo. O virtuosismo dos movimentos de câmara, que introduz o espectador no campo de batalha seguindo o ponto de vista dos soldados, não impede a aparência de imagens poéticas, enquanto a insistência nos detalhes dissolve o hiper-realismo para revelar composições abstratas. O horror e a beleza unem-se de forma paradoxal neste espetáculo onde o lúdico fabrica o pesadelo.

Depois dos cenários de guerra, o palco do Maria Matos recebe o Teatro de Marionetas do Porto e Cabaret Molotov. Com imaginação e engenho, João Paulo Seara Cardoso reinventa o teatro de marioneta no ambiente sombrio de um cabaret onde a dança e o circo se cruzam em coreografias desvairadas, nostálgicas, mas sempre atravessadas por uma leve ironia. Marionetas de luva, de vara e de tamanho humano ganham vida nas mãos de três performers ( Edgard Fernandes , Sara Henriques, Sérgio Rolo ), que criam os mais alucinantes números de music-hall, alternando a irrealidade poética, o nonsense e o grotesco.

Acompanhados pela música de uma instrumentista extraordinária ( Shirley Resende ), cujos volumosos cabelos espetados se erguem em direção ao teto, os trapezistas voam em câmara lenta, há caniches a ladrar o refrão de Mack the knifei; bailarinas inumanas rodopiam pelo ar ao som de valsas, uma for faz equilibrismo suspensa entre duas bocas. Para ver e ouvir com um sorriso nos lábios.
A fusão de técnicas e linguagens está bem patente nestes dois espetáculos, que integram um festival capaz de estabelecer confrontos no interior da diversidade, impulsionando, assim, a liberdade artística na criação contemporânea.

Rita Martins
in “Público”, 7 junho 2007


Cabaret Molotov

Uma Vida Aérea Intermitente Une a Marioneta e o Trapezista

Começa por uma explosão; e é de uma explosão do que trata esta obra. Uma explosão de bom humor, de sátira, de música, de “nonsense” com sentido, de boa arte em geral. É algo a que João Pau­lo Seara Cardoso – diretor do Teatro de Marionetas do Porto – nos tem habitua­do desde sempre (não nos podemos es­quecer do magnífico “TrêsPorquinhos”!). Desde espetáculos para miúdos e graú­dos, sempre deixando um matiz picante no paladar. E disso também precisamos! Especialmente numa época tão difícil para as artes cénicas no Porto, esta com­panhia demonstra que esta cidade sabe fazer bom teatro, para toda a classe de públicos e que vale a pena apostar nele.

E como vivemos numa” época tão difícil a nível político, eis que reaparece o Cabaret com forma de circo: sátira sobre a guerra, erotismo em toda a parte, muita vodka (“cur­va vodka”, não é Vladimir?), dança e boa música (Gotan Project, Eric Satie, Kurt Weil, Robert Miny e Yann Tirsen, que mais podemos pedir?). Com marionetas e intérpre­tes que se fundem – frequentemente não sabemos onde é que acaba a marioneta e começa o intérprete – manipu­lado magistralmente. Momentos inesquecíveis: paus que se transformam numa linda bailarina; um teatro dentro do teatro no qual observamos a guerra da maneira mais inocente possível, cães cantando, uma luta entre sapatos, dois clones competindo, palhaços a brincarem com os seus narizes… E não queria deixar de comentar o grande trabalho de Shirley Resende , uma mulher-orquestra que nos oferece alguns dos momentos mais doces do espec­táculo. Também aproveito para destacar o apresentador, Vladimir, um bêbado que resulta delirante, assim como a genial ideia de inventar e adaptar línguas que terminam percebendo-se, já que a única linguagem que tem sentido é a do poema “Me gusta cuando callas” de Pablo Neruda. Tudo o conjunto, sem tirar nem pôr, resulta num espetáculo que dura pouco mais de uma hora, que nunca nos aborrece e que nos mantém atentos do princípio ao fim, deixando-nos com vontade de mais quando a “cortina” (embora aqui não existam cortinas) desce.

O local é impressionante. Estamos a falar do incrível claustro do Convento S. Bento da Vitória do Porto. Um sí­tio que já nos ofereceu vários concertos da Orquestra Na­cional do Porto – a sua sede antes de ser transferida para a Casa da Música – e que além de oferecer uma acústica razoável, este edifício é de cortar a respiração. As mario­netas criadas por Erika Takeda, estão muito bem conse­guidas, assim como os figurinos, da mão de Cláudia Ri­beiro. O desenho de luz, de António Real ( João Paulo Seara Cardoso ) e de Rui Pedro Rodrigues; adapta-se a todas as necessidades dramatúrgicas, resultando sóbrio e eficaz. Os geniais intérpretes desta peça são: Edgard Fernandes , Sara Henriques e Sérgio Rolo.

de Sonia Esteban
in Revista Elegy, 2007

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