Entrevista Baalzine

Entrevista revista BAALZINE
Por Carla Ferreira

O Teatro de Marionetas do Porto estreia “Cabaret Molotov” nos finais de 2006. Foi a primeira incursão da companhia neste registo?

Sim, de certa forma. Na verdade, andamos há já muitos anos a abordar de forma talvez menos explícita nos nossos espetáculos, temáticas relacionadas com o universo do sonho, do voo…

É, no entanto, um cabaret muito peculiar, uma vez que associa dois universos, o das marionetas, que é o vosso meio natural, e o do circo. Nesse sentido, é assumido como um trabalho de natureza experimental?

Os nossos espetáculos partem sempre de experiências. No início da criação, normalmente, existem apenas ideias nebulosas que se vão clarificando com o decorrer dos ensaios. Com Cabaret Molotov as coisas passaram-se mais ou menos assim. Fomos descobrindo aos poucos, eu diria inventando, técnicas de marionetas que pudessem explicitar as ideias que tínhamos, nomeadamente ideias de movimento. Esse processo conduziu a uma grande panóplia de técnicas, que por sua vez, nas marionetas, determinam quase sempre estilos e estéticas : Bunraku, animação de objetos, marionetas de varas, de luva, “pictogramas”, etc. Por isso, a dimensão das marionetas, neste espetáculo, varia entre 6 cm e 1,5 m, o que não é muito vulgar.

Quais são as grandes referências da tradição teatral europeia presentes neste espetáculo? Há, como dizem, uma aproximação ao teatro musical com marionetas…

As marionetas, nomeadamente as de fios, sempre foram associadas a um certo virtuosismo. E na Europa, mas também na América, eram muito usadas em Cabaret’s de variedades, nos quais cantavam, tocavam e faziam habilidades impossíveis para o comum dos mortais. Havia também um certo conteúdo político nesses espetáculos, uma certa subversão característica da tradição europeia de marionetas de feira.

Podemos falar de uma tradição de cabaret em Portugal? Houve alguma pesquisa nesse sentido para este espetáculo?

Diria que não. O mais parecido com o cabaret na tradição teatral portuguesa será o Teatro de Revista, que já teve melhores dias. Há alguns anos atrás tínhamos feito uma pesquisa profunda sobre a Revista à Portuguesa para a montagem de Vai no Batalha, cuja estrutura, mas não a estética, é de certo modo parecida com o cabaret.

Qual o enredo desta peça? De que forma se ligam estas personagens marcadamente circenses?

Enredo… bem, diria que há uma dramaturgia subliminar que atravessa o espetáculo. É a história, ou melhor, a memória de Vladimir Molotov que nos transporta para esse ambiente antigo de um cabaret no qual o russo teve um amor de vida com a trapezista Matrioska. Mas isso não é muito importante e serviu-nos apenas de motivação para estruturar a narrativa. Este é um espetáculo com uma certa poética da imagem, do movimento, da música, da voz e do riso e o que tentamos dar ao público naquela hora e meia é isso e pouco mais, sem explicações. Tentando que o que as pessoas veem e ouvem (e sentem) crie nelas um efeito de deslumbramento.

De onde vem a “melancolia” deste cabaret?

Vem de um tempo passado e, talvez, da nossa memória feliz dos circos da nossa infância.

Qual é o papel ocupado pela música e pela dança neste espetáculo, uma vez que o discurso verbal está quase ausente?

É um espetáculo muito coreográfico e a música e o canto desempenham um papel fundamental para nos transportar para esse universo onírico. Mas esta é, mais uma vez, uma característica fundamental dos nossos espetáculos; uma opção também facilitada pelo facto de trabalharmos de perto com uma coreógrafa e porque os intérpretes têm formação de teatro, de canto e de dança.

Por coincidência ou não, várias companhias nacionais lançaram-se recentemente em produções musicais, no registo do cabaret (Baal 17, Cendrev, Teatro Acert, O Teatrão). No seu entender, a que se deve esta aposta? Há uma boa resposta do público a este tipo de espetáculo? É um desafio aliciante para atores, encenadores e restantes intervenientes?

Que é um desafio aliciante, estou de acordo, pela nossa própria experiência. Em parte deve-se ao facto de se trabalhar numa estrutura aberta que propicia um envolvimento criativo de todos os intervenientes. Quanto ao público, não há dúvida que no caso de Cabaret Molotov a receção tem superado todas as nossas expectativas. O que me parece é que as pessoas que fazem teatro estão, naturalmente, preocupadas com o alheamento do público em relação ao teatro, que se deve, muito em parte à proliferação do tal “Teatro do Aborrecimento Mortal”, de que fala Peter Brook. E, por isso, andamos sempre a tentar inventar fórmulas teatrais que, dentro das nossas convicções éticas e estéticas, respondam eficazmente aos legítimos anseios de um público contemporâneo. Talvez o “cabaret”, nomeadamente aquele que não se demite do seu conteúdo político e que não é uma mera forma de entretenimento light, possa ser uma dessas “fórmulas”.

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