Cabaret

E foi no Teatro de Belomonte, sede do Teatro de Marione­tas do Porto, que me encontrei com uma das figuras mais importantes do teatro de marionetas nacional: João Paulo Seara Cardoso. Diretor artístico e encenador desta fan­tástica companhia, recebeu-me com a sua simpatia habi­tual, respondendo às minhas perguntas de uma forma tão natural e sincera que mais do que uma entrevista parecia que estávamos a ter uma conversa de velhos conhecidos.

Entrevista dirigida por Sónia Esteban para a revista Elegy
2007

Como entrou no mundo das marionetas?

Nem eu sei (risos). Um curso do teatro universitário do Porto deu-me a base de conhecimentos, que aprofundei com alguns cursos em França. Mais tarde integrei o Teatro Amador de Intervenção (TAI- grupo de teatro liderado por Mário Moutinho – atual diretor do Festival Internacional de Teatro FITEI), que desenvolvia uma importante atividade na cidade. Os espetáculos para a infância com marionetas começaram a ser um dos pontos fortes da produção do grupo e isso levou, em 1988, à criação do Teatro das Marionetas do Porto.

Como está a situação político-cultural da cidade do Porto?
Nunca se viveram tempos tão difíceis nesta cidade. Dum ponto de vista estritamente financeiro não nos afeta, já que não dependemos da Câmara e há 5 anos que não atuamos no Rivoli. Nunca mais enviamos uma proposta a esta sala desde o momento em que o Presidente da Câmara (Rui Rio) tornou clara a sua “política cultural” e começou a hostilizar ostensivamente os agentes culturais. Embora a situação não nos afete diretamente, está a ser desastrosa para a cidade. E é lamentável que eventos, instituições e festivais de grande importância e que prestam um grande serviço público não tenham o apoio a que têm direito por parte da autarquia.

Acha que esta situação vai mudar?
Não. Atingiu um estado que se pode considerar “bater no fundo”. Durante o mandato de Rui Rio não nos restam esperanças. A única que temos é se ganhar o PS (único partido da oposição com possibilidade de ganhar as eleições) daqui a 3 anos. Até lá esta cidade vai viver um pesadelo.

Os profissionais da área vão ter de emigrar?
Há uns anos atrás, comecei a sentir um enorme desencanto em relação a este “desmoronar” de uma certa utopia cultural que se tinha vivido no Porto até 2001, o que me levou até a criar um espetáculo em que exprimia esse sentimento. Um sentimento que talvez tenha levado pessoas a desistir dos seus projetos e a mudarem de cidade. Embora continue “desencantado” não sou pessoa de desistir e acho que a atitude certa é continuar a lutar, contra ventos e marés.

Fale-me do Cabaret Molotov.
Desde os anos 30 que as marionetas sempre se deram num espírito de Cabaret: misturavam-se marionetas com cantores, bailarinos, artistas de music-hall, etc. Houve um filme Post-Expressionista alemão sobre o Cabaret berlinense que me influenciou bastante. Também tenho visto belíssimos espetáculos de novo circo que me têm sensibilizado. São elementos de background que me motivaram a criar este espetáculo. Durante a produção, vimos e discutimos dois filmes importantes para a compreensão do ambiente de cabaret: “Moulin Rouge” e “Cabaret”.
O que me preocupava neste espetáculo era encontrar uma estrutura dramatúrgica que funcionasse como fio condutor para unir as diferentes partes, de forma a não ficarem apenas “números” soltos de cabaret.
O espetáculo divide-se em duas partes com duas estruturas diferentes: a primeira mais de Cabaret, expositiva, e a última mais teatral, em que o sentido do tempo, que é outro, e do lugar, que não é aquele, começam a tornar-se elementos, por assim dizer, inquietantes. No final entramos no universo pessoal dos intérpretes e compreendemos que o acabar do espetáculo é o começo de uma viagem.

Qual é a tua parte preferida e porquê?
Em termos técnicos de marionetas (falo no sentido da procura de coisas novas) é o número da bailarina. Só com o estofo técnico que temos é possível fazer aquilo com 3 pessoas e tão poucos meios: um bailado para cinco pauzinhos e uma bola. Por outro lado, agrada-me ter conseguido criar um universo paralelo de marionetas e atores e chegar ao final da peça com a sensação de um confronto violento do qual ninguém sai vencedor.
O que busco na nossa maneira de fazer teatro é esse confronto, essa dialética, esse jogo entre o ator que vive e a marioneta de vida intermitente que apenas tem existência cénica. É, de certo modo, uma metáfora da nossa vida, de nós próprios, da nossa existência efémera.

Do quê é que gostas menos?
Ainda não sei. Passou-se pouco tempo desde a sua estreia e ainda não tenho a distância suficiente. Geralmente acontece-me isso passado um ano. Agora está muito quente, embora sempre existam coisas que quero mudar, mas são mínimas e íntimas.

Como encontraram Shirley Resende (instrumentista)?
Uma das principais dúvidas que tinha na criação deste espetáculo era: que música deveríamos usar sem conotações primárias de Cabaret e de que forma. Falei com a Shirley, que colabora connosco há muitos anos como pianista, e lancei-lhe o desafio de ser mulher-orquestra. Decidimos que a música do espetáculo seria integralmente tocada ao vivo, sem recurso a gravações. E depois de muito trabalho a Shirley conseguiria tocar piano e acordeão, cantar e ainda tocar bateria com as mãos, os pés e sei lá que mais… Usamos musicas variadas: de Yann Tirsen a Eric Satie e a Gotan Project.
Um facto importante, para a construção do espetáculo e para a sua teatralidade foi o dia em que me apercebi de que ela poderia também ser um personagem da narrativa, e não estar só no seu palquinho a tocar. Ela contracena com o Vladimir, e, aos olhos do público, eles parecem ser os únicos que conhecem a verdadeira história daquele cabaret melancólico.

Os Intérpretes.

Este trio de intérpretes trabalha comigo há vários anos e como nos conhecemos bem o nosso processo de criação é muito partilhado. Têm todos formação teatral, embora a do Sérgio seja na área da cenografia. O nosso processo é quase formativo. Qualquer bom ator que entre num processo de trabalho connosco poderá dar um bom marionetista, já que se produz um efeito de osmose.

O Teatro de Marionetas tem qualquer vínculo com o Festival de Marionetas?
Não estamos vinculados ao Festival, mas temos uma relação muito próxima. Nos primeiros anos do Festival a Isabel (Isabel Alves Costa, diretora do Festival) e eu encontrávamo-nos muito em espetáculos pela Europa e trocávamos impressões e fazíamos análises do que víamos e das tendências do teatro de marionetas, o que veio a influenciar o conceito do Festival que ela criou.

Está agendada alguma tourné?
O próximo espetáculo será “Nada ou o Silêncio de Beckett” em Santiago de Compostela (Espanha), nos dias 19 e 20, na Sala Nasa. São bons amigos com quem já temos uma relação antiga. Em março estaremos com o mesmo espetáculo em Colónia, Alemanha.

Qual o tipo de público costuma ir aos vossos espetáculos?

O nosso público é essencialmente constituído por uma camada jovem, dos 20 aos 30 anos. Comecei a notá-lo, especialmente, nos “Três Porquinhos” (teatro Rivoli), um espetáculo de temática urbana e que considero muito contemporâneo. A nossa decisão de realizá-lo durante dias de semana à meia-noite foi arriscada, mas o certo é que esteve sempre com lotação esgotada.

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