As Marionetas estão na Vanguarda das Artes Cénicas

Texto e entrevista: Valdemar Cruz
Museu da Marioneta de Lisboa
Catálogo de Exposição, outubro de 2001

O diretor artístico do Teatro de Marionetas do Porto vê o mundo das marionetas cada vez mais liberto do peso da tradição e aberto a uma atitude revolucionária, ao libertar-se do peso do texto como elemento primordial

O que é para si uma marioneta?

É um agente de interpretação. Apesar de depender de um ator, é um instrumento por ele usado para interpretar. É, por isso, um instrumento teatral. É também um objeto plástico, uma escultura. Penso que será por isso que o espetáculo de marionetas tem sempre uma componente visual muito importante, porque o que o público vê são esculturas com uma determinada carga teatral, que pode nem ser figurativa. Grandes momentos de beleza do teatro de marionetas a que tenho assistido são interpretados por marionetas que, ou são figurações de estados de espírito, ou são objetos abstratos em movimento.

O entendimento que hoje se tem de uma marioneta é substancialmente diferente do de há algumas décadas?

É, devido a essa questão do figurativismo. Noutros tempos, as marionetas eram personagens humanas. A partir do início do século, com a escola russa e a Bauhaus, fizeram-se experiências no que diz respeito ao abstrativismo e à exploração das formas geométricas das marionetas. Isto no domínio restrito da marioneta-objeto. No domínio mais vasto da conceção teatral, penso que o teatro de marionetas segue a evolução das correntes teatrais do século XX. Recentemente é que ocorre a grande revolução do teatro de marionetas enquanto forma teatral. Primeiro, penso que como reação a uma certa estagnação do teatro tradicional. Por estar sempre associado às artes plásticas, e nomeadamente pelo facto de os agentes construtores dos espetáculos serem sempre escultores ou pintores, as marionetas embarcam nesta vanguarda das artes. Depois, porque penso que o teatro tende cada vez mais a assumir aspetos formais em detrimento da narrativa. O teatro de marionetas é um teatro de formas que se move muito mais nos domínios do fantástico, do onírico e de uma certa poética, talvez gerando uma nova forma de teatro visual, em que o texto tem muito menos importância que nas narrativas teatrais tradicionais. Deste ponto de vista, o teatro de marionetas é a arte cénica com maior capacidade de absorver, num cruzamento feliz, as novas tecnologias do palco, ou as novas formas teatrais, como a dança, o vídeo, a imagem.

Como é que as marionetas se posicionam no contexto da produção artística contemporânea?

Como disse recentemente, no Porto, Roman Paska, diretor do Instituto Internacional de Marionetas, o teatro de marionetas constitui a vanguarda das artes cénicas do próximo século, devido a esse espírito aglutinador de teatro de formas puro, de teatro visual, numa época em que o que se vê é o mais importante das nossas vidas. Acompanha os signos da linguagem contemporâneos e sempre com uma certa universalidade.

A multiplicação de festivais internacionais de marionetas tem anulado ou ajudado a afirmar a individualidade cultural de cada um dos criadores?

A individualidade cultural é uma das principais características da criação contemporânea com marionetas. Porque, embora o grande salto da criação no teatro de marionetas, em direção a uma contemporaneidade, tenha sido obtido a partir da negação do peso da tradição, que é muito grande, as tradições universais continuam como algo de inconsciente e subterrâneo nos espetáculos. Sem querer personalizar, penso poder dizer que sou um caso paradigmático. Começo há mais de 20 anos a fazer teatro de Robertos, que é a mais antiga tradição portuguesa, e estou agora mais interessado em pesquisar o que possa ser uma linguagem contemporânea deste tipo de teatro.

A que conclusões chegou?

Desde logo a constatação de que o peso da tradição é tão forte, que há sempre algo que permanece em nós de saber antigo. Temos mais conhecimento do que é o teatro de marionetas, do que do próprio teatro, porque é possível conservar os agentes, que são as marionetas , e não os atores.

Ressalta daí a importância da criação dos Museus de Marionetas…

Sim, essa importância é muito concreta. O pequeno espólio que existe em Portugal está no Museu da Marioneta. Por isso diria que este espaço é de uma enorme importância para uma espécie de memória coletiva do teatro de marionetas em Portugal.

Para além de conservar a memória, pode abrir novos caminhos?

É muito importante preservar a memória, mas, neste momento, a imagem que o público tem do teatro de marionetas está muito associada ao tradicional. Uma parte da nossa luta é fazer impor novas formas de fazer teatro com marionetas. Gostaria, por isso, que também houvessem museus que se referissem a uma certa contemporaneidade.

A partir de meados do século XX assistiu-se a uma crescente infantilização da marioneta. Essa atitude está a mudar?

Até há 100 anos, o teatro de marionetas era algo de universal, até nesse sentido das idades. Sofre, de facto, uma infantilização neste século. Recentemente é redescoberto fora desse contexto em que começou a ser associado como espetáculo para crianças. Um dos grandes esforços dos criadores de marionetas tem sido o de marcar essa posição, recuperar aquela característica universalista. Penso que no futuro vai continuar esse processo de libertação do peso da tradição, evoluindo para caminhos cada vez mais formais. O que é, pode dizer-se, bastante revolucionário, ao significar a perda de importância do texto como elemento primordial do teatro de marionetas. O teatro de marionetas será cada vez mais um espetáculo audiovisual em que são oferecidos estímulos aos espectadores, mais ao nível da plástica do som e da imagem, do que do seu significado.

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